Relato de uma ex-magra ex-gorda

Sempre fui gorda. Daquele tipo de pessoa que nunca poderia dizer “não sou gorda, estou gorda”, porque esse “estar” durou a vida toda. Daquele tipo de pessoa que tem no sobrepeso um tipo de identidade.

E sempre fui relativamente conformada com a gordice, já que era mais semi-gorda do que gorda. Quer dizer: pesei na faixa de 70kg desde que parei de crescer (no metro e cinquenta e sete, oito ou nove). Já era na faixa do sobrepeso, sim, mas meu biotipo ainda me deixava com pulso ossudo e saboneteira bem aparecida.

Só que aí aconteceu: meus 70kg viraram 80 e tantos, lá no segundo ano de faculdade. E já culpei muita gente pelo fiasco de ter ganhado tanto peso, mas hoje só culpo a mim, é. Não interessa os motivos, eu descuidei, relaxei, deixei de olhar pra mim mesma. Foi um processo longo, é claro. Nem sei dizer quando começou (mas chegarei no quando terminou). Só sei que, quando dei por conta do que eu tinha feito a mim mesma, desabei a chorar e esculachei de vez.

E aqui entro com uma ressalva: nem de longe eu sou do time de mulheres que vivem impecáveis. Nunca fui fã de maquiagem, de salto alto, de meia calça, de chapinha no cabelo e de depilação com cera, não, e duvido que um dia serei. Quando eu digo “esculachei de vez”, quero dizer que cheguei no fundo do poço e continuei cavando, naquele ponto de nem tomar banho diariamente porque eu era gorda e desinteressante e isso não faria a menor diferença. Um dia, me vi de relance numa vitrine de loja, de calça de malha, camisa listrada, cabelo sujo e chinelo de dedo, e me senti miserável.

Foi particularmente difícil porque eu saí da escola em 2005. Em 2006, no cursinho, ainda era muito jovem pra ter minha imagem desvinculada de quem eu era na escola. Em 2007, no meu primeiro ano de faculdade, eu vivi meio que uma transição. E em 2008 eu ganhei peso. Foi como se minha transição tivesse pulado da adolescência pra decadência assim, involuntariamente. E por isso foi tão traumático. Era como se ser adulta, na minha vida, fosse… aquilo.

E aí eu decidi que não queria mais aquilo pra minha vida, mas todo mundo que é gordo sabe que não é exatamente fácil emagrecer. É aquele papo todo de mudar a cabeça, que mudar o corpo vem como consequência. Eu não entendia como podia mudar a cabeça se, dentro dela, eu era obviamente horrorosa. Fazer regime quando você tem problema com comida não é, também, a coisa mais fácil do mundo. Sei que eu engordei num momento de crise porque sei que eu sou muito dessas que desconta frustração em comida. Tentar emagrecer e não conseguir era motivo de frustração que eu também descontava em comida: vivia num looping.

Aí eu fui ao médico. Aí ele me receitou do remédio proibido.

E aí eu emagreci, a duras penas. Perdi 20kg e muito cabelo. Claro que não o suficiente pra que alguém percebesse, mas eu percebi. E perdi cabelo não só porque ele caiu, mas porque eu arrancava. O remédio não me fez mal, dum modo geral. Mas fiquei extremamente irritadiça. Chorava e me machucava por muito pouco, só porque não podia comer o que me incomodava. Supri falta de comida com gastos desenfreados.

Mas, apesar de tudo isso, eu emagreci. E isso me deixou feliz, é claro. Cabia em jeans 44, podia usar regatinhas e shortinho sem parecer ridícula, o assento do ônibus não era mais pequeno demais pra mim. Enfim a gorda porca em que eu tinha me transformado tinha ido embora. Só me deixou uma tristeza: meus vestidos já não ficavam mais tão bonitos, pareciam frouxos demais, mesmo os pequenos. E só isso.

Todo mundo me julgou – e não pouco – pelo uso de remédios. O que eu posso dizer é que assumi o risco e precisei daquilo. Não pra emagrecer, mas pra achar o “eu” perdido em mim mesma. Foi uma forma de “chacoalhar a poeira” e reviver (inclusive cortando os cabelos podres de excesso de tintura e tirando peles mortas dos pés). E voltei a tomar banho todos os dias, é. Me sentia, finalmente, bonita.

E aqui vale outra ressalva: o fato de eu me sentir bonita, gorda ou magra, não quer dizer que eu seja bonita. Pra mim, eu sou. Mas sei que o resto do mundo não vê dessa forma. Há quem concorde, há quem discorde. Penso que eu sou daquela gente que vive na linha tênue entre o bonito e o feito, que nunca dá pra determinar de que “lado” realmente está. E eu gosto disso. Gosto da sensação de ser diferente – por isso, por exemplo, não me incomoda o fato de ser vesga – e não ter como ser confundida, nunca, com qualquer pessoa linda de balada. Sempre tive em mente que gente bonita é gente diferente, então por que não eu?

Às vezes a gente, até eu, fica meio emputecida com mulher que emagrece porque gordas também são maravilhosas. Eu ficava, sim, até entender que tem vez que a gente precisa disso, como eu precisei.

O caso é que depois de ser ex-gorda por algum tempo, meu remédio foi proibido e se tem uma coisa que é muito diferente é um apetite controlado por medicação e um apetite de verdade. Duh, eu voltei a comer. E, duh, eu voltei a engordar. Bem rápido, aliás.

Fiquei triste, claro. E não por pouco tempo. Entrei em academia pra tentar reverter a maldição do sobrepeso, mas só fez acelerar. Tava, de novo, ficando realmente deprimida. Até meu namorado me dar um safanão (simbólico, claro): “o problema não é que você tá engordando, eu não ligo pra isso. Mas você tá muito relaxada”. Se eu estivesse absolutamente confortável com a condição de “gorda relaxada”, teria cagado pro comentário. Mas eu já sabia que o caso era bem outro. E aí que me deu aquele estalo, né?

Do tipo “eu não preciso ser relaxada só porque estou engordando, é claro!”

O engraçado é que lidar com o emagrecimento é fácil. Ninguém questiona os motivos de você emagrecer. É óbvio que perdeu peso porque “criou vergonha na cara”, não importa se aconteceu porque, sei lá, você teve um câncer no estômago. Emagrecer é fácil porque todo mundo vai te elogiar (mesmo que condene seus métodos) e vai te colocar pra cima. Quando você engorda é que a coisa é triste. Querem saber se você tá doente ou com problemas, querem afirmar que não faz bem pra sua saúde (não importa o que os seus exames digam) e querem decidir o melhor regime pra você. Quando você engorda, ninguém quer saber se você se sente bem ou está satisfeita com o corpo que tem, porque na cabeça do mundo é óbvio que não, não está. E o tratamento dispensado é sempre esse, o de quem sabe que não está tudo bem (mesmo que esteja).

Por isso é difícil de lidar.

Quis escrever esse post porque decidi que não vou deixar de me sentir bonita só porque engordei e porque falar sobre o assunto é uma forma de lidar com isso. O que mudou, de fato? O tamanho dos meus jeans? A circunferência da minha barriga? O formato do meu corpo ainda é o mesmo, meu rosto ainda é o mesmo e eu ainda sou a mesma. Precisei ser ex-gorda pra entender isso. E precisei ser ex-magra pra entender que não tem nada de errado em ser gorda.

Não quero emagrecer. Quero que meus vestidos, mais do que shorts e regatinhas, fiquem bem em mim.

E quero que aceitem, sim senhor, que me aceito muito bem da forma (redonda) que sou.

Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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Uma resposta para Relato de uma ex-magra ex-gorda

  1. Lìvia disse:

    Fantástico! : )

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