Divaguei: lugar de fala

SENTA QUE LÁ VEM TEXTÃO (dessa vez, muito ÃO)

Não vou entrar no mérito do novo Bafão™ dessa rede social (“ai, não sei de bafão nenhum” – sigo achando que é SORTE SUA), só queria falar sobre LUGAR DE FALA, que foi a origem de todo o mal. Faz tempo que to com esse texto germinando na minha cabeça e, correndo o risco de perder o timing, acho que tá na hora de materializar ele.

Há muito tempo –  considerando a passagem de tempo online -, joguei no twitter umas ideias sobre como essa história de lugar de fala encontra muito respaldo na análise do discurso. Twitter é meu lugar oficial de jogar ao vento ideias que preciso desenvolver porque ninguém lê nem se importa, então serve quase como caderno de anotações. Isso tem martelado há tempos pra mim.

De cara, já digo: eu não acho que lugar de fala é uma bobagem. Mas também já digo: eu não acho que é simples assim, “eu vivo isso, eu falo sobre isso e mais ninguém”.

Vamos lá.

PRIMEIRO: o “lugar de fala” de uma perspectiva mais “teórica”

Já vou de antemão avisar que esse texto não tem um referencial teórico redondinho, porque não é um artigo acadêmico (inclusive existem diversos artigos acadêmicos sobre o tema, a quem interessar possa), mas também não é uma coleção de “achismos”.

Tudo começa ali na formação do sujeito discursivo. Não quero ser chata “academicista”, mas esse sujeito discursivo se constitui basicamente em duas coisinhas: polifonia e dialogismo. Pra quem nunca ouviu falar em nada disso, simplificando muito significa basicamente que nós, enquanto sujeitos do discurso, somos uma soma das várias vozes que cruzaram nossa vida (polifonia) e da interação com outros sujeitos (dialogismo). É um negócio que é bastante simples (e ao mesmo tempo não é; eu mesma passei um semestre inteiro brigando com a AD porque isso não entrava na minha cabeça) e pra quem se interessar mais é só dar um Google no que Bakhtin tem a dizer a respeito.

Além disso, a AD também fala sobre o discurso como materialização da ideologia. Aqui a gente vai mais pra um lado de Foucault e o poder do discurso e tudo, mas as coisas se relacionam bastante. Pra mim, que não sou exatamente uma pesquisadora da área, não existe uma coisa que materialize mais ideologia, com mais força, impacto e poder, do que o discurso. Por isso acho tão besta quando, pra diminuir a luta de uma pessoa, alguém diz que ela “só fica em casa com a bunda no sofá escrevendo sobre o assunto”. É claro que discurso não é só fala (e escrita), e é claro que existem outras formas efetivas de se combater qualquer problema, mas falar sobre isso é EXTREMAMENTE importante, sim. Não existe transformação sem que a gente fale sobre aquilo que deve ser transformado (isso também é um pouco Foucault, se alguém se interessar).

É claro que eu escolhi simplificar muito teorias muito mais complexas, mas insisto: quem se interessar pode procurar pelas contribuições de Bakhtin e Foucault na Análise do Discurso e pode inclusive dar um search em artigos sobre o lugar de fala na perspectiva da AD que tem muita coisa com um embasamento teórico bem sólido a respeito.

E aqui entro nas minhas subjetividades: como essas coisas se relacionam?

Bom, a ideia de lugar de fala e de vivência que muitas militâncias pregam é basicamente isso aí que a AD diz experimentado na prática.

Eu, enquanto mulher e gorda e considerando esse lance de polifonia e dialogismo, sou basicamente formada por todas as vozes que dialogaram comigo ao longo da vida e que caracterizaram o que é, pra sociedade, ser mulher e gorda (e aí entra a ideologia!). Minha construção como sujeito foi totalmente atravessada pelos discursos de outros sujeitos que trouxeram até mim o que é ser “mulher e gorda”.

Só que essa experiência, veja bem, é muito subjetiva (não é à toa que sujeito e subjetividade são palavras da mesma família).

Agora eu vou trocar “sujeito” por “pessoa”, mas façam o favor de entender: cada pessoa nessa vida vai ser formada de experiências diferentes, mesmo que elas dividam o espaço e o tempo quase que integralmente. Mesmo irmãos que façam absolutamente tudo juntos, mesmo que tenham o mesmo gênero, frequentem a mesma escola, brinquem com os mesmos amigos vão ter um contato diferente com o mundo – e é isso que faz a nossa subjetividade.

Mas aí (e sempre tem um mas) a gente pensa nas minorias – e nas ideologias dominantes. Existe nesse mundo racismo, misoginia, LGBTfobia, gordofobia, capacitismo… e pessoas negras, mulheres, da comunidade LGBT, gordas, com necessidades específicas vão passar, ao longo da vida, por situações muito parecidas. Em outras palavras: as vozes que vão formar o discurso dessas pessoas, muitas vezes, serão muito parecidas. Isso porque o discurso do racismo, da misoginia, da gordofobia, etc. se repetem em uma comunidade – com aquela ajudinha da mídia, do senso comum e das tradições.

Então, quando a gente fala em lugar de fala, de maneira bem grosseira a gente pensa sempre nesses discursos que se repetem. Acho que se o negócio fosse só por aí, era totalmente seguro a gente brigar por “lugar de fala” como uma coisa inexorável, mas o que a gente deixa de lado é essa outra questão que é tão importante quanto, a da subjetividade.

Por mais que os discursos que me formaram ao longo da vida enquanto gorda (e aqui to só fazendo um recorte) tenham sido os mesmos que o de qualquer outra gorda que viva em uma comunidade que compartilhe a ideologia dessa em que vivo, a nossa experiência ao confrontar e assimilar esse discurso provavelmente foi diferente. No caso de mulheres gordas, é muito comum a gente encontrar aquelas que corroboram com a violência e a opressão que vivemos, porque elas aprenderam sem qualquer outra resistência que o corpo gordo é um corpo equivocado e nós precisamos nos adaptar ao mundo. Comigo, foi diferente. Cresci com influências que me ensinaram desde muito nova que não tem nada de errado comigo e com o meu corpo, e por isso nunca engoli a conversa de que eu é que preciso mudar pra me encaixar e bato de frente com isso desde que tenho uns 13 ou 14 anos.

Como não quero fazer disso um texto pessoal, volto ali nas mulheres que reproduzem discursos problemáticos acerca do corpo gordo: essas mulheres também têm a mesma vivência que a de uma gorda ativista, mas a enxerga de uma maneira diferente. Essa mulher vai se sentir validada por listinhas de “porque namorar uma gordinha”, vai se autodebochar e vai dizer que não acha errado fazer piadas de gorda. Essa mulher também é uma gorda com vivência, então ela ocupa exatamente esse lugar de fala. E aí? A gente vai dizer que ela é uma estúpida que ainda não encontrou a luz? A gente vai ignorar TUDO o que já atravessou a vida dela até agora (e provavelmente ainda atravessa) porque o discurso dela não tá alinhado com o nosso?

Um exemplo muito nítido dessa situação é o daquele rapaz, negro, que falava abertamente contra o movimento negro nas redes sociais. Se a gente for se basear essencialmente no lugar de fala da forma simplificada que ele se apresenta, o discurso desse rapaz era incontestável por qualquer um que não fosse negro, já que ele era não só negro como periférico também. Quem adorava era a direita racista, que adorava pegar trechos das declarações dele e dizer: “olha, é preto e pobre falando”. E era, mesmo. E muita gente se calou pra muito absurdo que esse moço disse, porque “não é meu lugar de fala, não vou arranjar treta”. É. Mas volto nisso depois.

No lado oposto dessa questão, a de pessoas com vivências de gordofobia, racismo, capacitismo etc. que se posicionam ao lado do opressor (e eu não to fazendo um texto demonizando essas pessoas, inclusive e principalmente porque elas não se beneficiam dessa situação; apenas afirmo que elas existem), existe o lado da pessoa empática. Uma pessoa magra com certeza não vai ter sua subjetivação atravessada por discursos gordofóbicos (ou até vai, mas numa perspectiva de padrão estético, que é o melhor amigo da gordofobia na socialização de mulheres), mas pode conviver com pessoas que passem por isso. A experiência dela não vai ser a mesma, o discurso não vai ser o mesmo; ela provavelmente vai receber esse impacto como releitura, como a visão da pessoa oprimida sobre aquela situação. É justamente aí que a empatia entra: isso pode ser somado à constituição desse sujeito pela capacidade de se colocar no lugar do outro, em menor ou maior esfera. Não, não é a mesma coisa que efetivamente ter aquela vivência. É claro que não é. Passar por uma situação de constrangimento ou violência estrutural é muito diferente de testemunhar isso de fora, ainda que dividindo muito intimamente o momento com a pessoa alvo da violência. Mas empatia existe e pessoas podem assumir um discurso de ativismo mesmo sem fazer parte daquela parcela atingida, isso só pela empatia, mesmo.

Se a gente não acredita que empatia pode ser real, eu realmente nem sei porque a gente pede pra que as pessoas tenham empatia, se a luta já é perdida.

Isso faz inclusive pensar a respeito de que “lugar” é esse. É o lugar enquanto ativista? É o lugar enquanto indivíduo vítima da opressão? É o lugar enquanto ativista vítima da opressão? Delimitar tanto esse “lugar” não apaga todas as pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de confrontar sua formação? Ou ainda: não faz parecer que lugar de fala só é incontestável enquanto atender nossas expectativas?

E ainda existe aquela coisinha básica que é a omissão de quem “não quer tomar lugar de fala”. Não aconteceu uma ou duas, mas várias vezes de amigas me falarem algo do tipo: “eu admiro sua luta, mas não consigo me posicionar num debate sobre gordofobia, mesmo quando as pessoas estão sendo umas escrotas, justamente porque tenho medo de tomar lugar de fala”. A elas, eu digo: se posicionem, por favor. Nem sempre a gente tem a chance de chamar a amiga que tem lugar de fala ou achar textos de pessoas apropriadas pra falar a respeito. Antes uma pessoa de fora se posicionando do que se omitindo. Sério.

Tudo isso é muito complicado por diversos fatores.

Porque militância não é autoajuda.

Porque a gente não elegeu porta-vozes oficiais de ativismo que podem falar por qualquer um.

Por causa das subjetividades.

Na dúvida, eu sou da seguinte opinião: se é pra somar, é bem vindo. Não importa de onde venha a fala.

Quando é que roubo de protagonismo e lugar de fala (me) incomodam? Quando apagam completamente a existência de quem é atingido pela situação. Tipo quando homens se engajam em debates pra ensinar mulheres pelo que elas devem lutar, ou quando uma pessoa magra quer decidir o que é ou não gordofobia (uso a luta das pessoas gordas pra falar a respeito porque é um espaço confortável pra mim). Incomoda quando é oportunismo puro, tipo certos youtubers gravando vídeo feminista e continuar sendo misógino nas entrelinhas. Incomoda quando propõem atividade de empoderamento feminino só com homem coordenando, quando é mesa redonda sobre racismo só com gente branca, quando é palestra sobre saúde da comunidade LGBT só com palestrante hetero. Isso incomoda.

Mas não (me) incomoda quando é pessoa de grande circulação passando adiante um discurso que os grupos sociais já cansaram de repetir. Quando é homem divulgando informação sobre necessidade do aborto, quando é magro repassando que vestir 42 não faz de ninguém uma pessoa gorda.

Com isso eu só quero dizer que: a gente realmente não precisa de ninguém falando nada por nós. Mas euzinha pessoalmente não sei se a gente tá em posição de descartar quem quer somar só porque eles não são como nós. Inclusive porque a gente nem sabe dizer categoricamente quantos de nós são como nós, né.

[esse texto é de opinião pessoal e não fala por qualquer outra pessoa além de mim mesma, só pra esclarecer]

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O mito do “antes e depois”

Esses dias, vi num dos grupos de que faço parte uma dessas fotos de “antes e depois” da Melissa McCarthy. Não tenho nada a ver com a vida da Melissa (nem de qualquer outra pessoa), mas acho extremamente problemático esse tipo de foto. É a maneira mais clara e óbvia de dizer “olha que pessoa gorda ridícula eu era e olha que belezinha me tornei”. Além disso, é o jeito mais desagradável de cuspir num corpo que, por mais que você detestasse, te manteve em pé por meses, anos ou até uma vida inteira. E isso é horrível.

Não é o caso da Melissa, mas quase sempre as fotos de “antes” são descuidadas, espontâneas, em poses que desfavorecem a pessoa em todos os aspectos, não raro com cabelo feio, roupa esculhambada… sei lá. E “depois” é sempre gente linda na balada ou, no mínimo, bem arrumada. A pessoa não percebe, provavelmente, que o que mudou de uma foto pra outra foi muito mais que o peso, mas a maneira como ela olha pra si mesma, como se cuida, como se arruma.

Daí eu achei uma foto minha de “antes” que ilustra isso, mas às avessas:

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À esquerda, em out/nov de 2011, na única foto de corpo inteiro que tenho dessa época; à direita em novembro de 2015 e me sentindo fantástica.

A primeira foto é de outubro ou novembro de 2011. Eu tinha quase 50kg a menos do que tenho hoje e não consigo olhar pra essa foto e dizer “olha como eu era ‘melhor’!”. Apesar do corpo magro, eu era uma pessoa triste. Eu tava passando por um momento horrível na minha vida, com um relacionamento complicado, um emprego que eu odiava, tomando todo dia um monte de moderador de apetite, ansiolíticos e laxantes a perder de vista. Nessa época, eu saí um dia pra ir ao cinema e comer um lanche e joguei fora um Big Tasty depois de dar UMA mordida nele quando vi o valor calórico que ele tinha. Talvez um monte de gente me desse tapinha nas costas pela atitude, mas de certo eu tinha passado aquele dia com uma média de 500 calorias, porque era o que eu comia todo dia.

Eu vivia ansiosa, irritada, não só pelo moderador de apetite mas por tudo o que eu tava vivendo. Eu não conhecia meu corpo, eu não sabia vestir meu corpo, eu não tinha VONTADE de entender meu corpo. Meus dias oscilavam entre querer morrer e querer me enterrar num buraco até me sentir melhor.

E eu tava MAGRA. Eu devia me sentir feliz. Mas tava tudo desandado e não tinha como sentir qualquer coisa diferente de frustração. Foi puxado entender que ser (ou estar) magra não ia, exatamente, revolucionar minha vida, até porque no começo, quando comecei a perder peso, eu tive momentos de me sentir melhor. Só que a vida tomou outro rumo que me forçou a perceber que nunca foi o quanto eu pesei que me fazia infeliz, mas, sei lá, a vida num todo ou a forma como eu lidava com as adversidades. Ou até as adversidades por elas mesmas.

A segunda foto, meu “depois”, é de novembro de 2015. São 50 kg a mais. Não 10 ou 20, 50. Tem gente que pesa menos do que o tanto que eu engordei nesses 4 anos. E eu não vou mentir: no começo, perceber que eu tava engordando de novo foi devastador. Eu ainda era a pessoa que jogou fora um sanduíche inteiro pra não comer as mais de 2.000 calorias dele de uma vez, afinal. Eu ainda tomava laxante como se fosse bala de menta, eu ainda era a pessoa que subia na balança depois de cada refeição pra checar se engordou, no fim das contas. Então é claro que quando o número começou a subir, primeiro devagar e depois descontrolado, eu me senti horrível. A única coisa que eu sentia é que eu era a personificação da derrota.

Engordei os primeiros 20kg entre 2012 e 2013, quando parei com o moderador de apetite. Foram os meses mais difíceis. Os 30 restantes foram nos dois anos seguintes e só vi meu peso estabilizar de novo em julho desse ano.

Mas nesses últimos dois anos, ao invés de entrar em pânico, resolvi me dar uma chance. É claro que não foi FÁCIL. As pessoas dizem (e muito) que se aceitar gorda é só pretexto pra não se mexer e mudar, que é o caminho cômodo e confortável, mas elas não têm a menor ideia do que estão dizendo: a sociedade odeia gordos e odeia com mais força ainda o gordo que cansou de brigar contra si mesmo e resolveu VIVER. A sociedade só gosta do gordo que sofre pra emagrecer, e gosta com ressalvas. Resistir não é cômodo; existir enquanto gordo não é cômodo – e enquanto gorda é ainda mais difícil.

Mas eu me dei essa chance, sim.

E, hoje, olhando pra essa foto, acho que fiz uma coisa boa. Deixar de lado todo o ódio que sempre senti por mim mesma, por não ser a pessoa que “deveria”, por não ter o corpo que “deveria”, foi essencial pra me conectar comigo, descobrir o que me veste bem, o que me faz bem e não ser mais essa pessoa que espera o dia seguinte, o “peso ideal” ou qualquer outra coisa pra me sentir capaz.

Não sou a rainha da desconstrução. Não sou a pessoa com a autoestima mais inabalável do mundo. Ainda tem dias que eu olho pra mim mesma e sinto vontade de chorar e me pergunto porque não posso ser diferente. Mas a real é que hoje eu sei que isso não tem nada a ver com o quanto eu peso e que esses dias eram muito mais frequentes há 4 anos, quando eu era diferente. Hoje eu só aceito que tem dias que vou perder e que posso tentar de novo no dia seguinte.

E aí eu volto no que disse no começo do texto: “antes e depois” não tem nada a ver com peso, tem a ver com a forma com que a gente olha pra gente mesmo. Não deixa de ser triste notar que muitas pessoas ainda precisam perder peso pra se olhar com carinho, mas o intuito aqui é dizer que isso não é real. Não quero dizer pra ninguém “não emagreça!”, só quero dizer que essa batalha ainda não tá perdida e que qualquer pessoa que seja não precisa esperar os números da balança diminuírem pra se sentir bem, em paz, pra ser quem gostaria de ser. É uma coisa que pode ser AGORA, sim, porque a vida não tá esperando pra acontecer, afinal.

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Representatividade

Esses dias, sapeando pela internet, li de uma blogueira um comentário sobre uma matéria X de uma revista Y todo elogioso e comentando o quanto a revista progrediu e passou a abordar temas mais elaborados pra mulheres. Uma das coisas que ela pontuou é que muita gente reclamou de não ter nenhuma mulher gorda ilustrando a matéria, mas isso não é exatamente um problema porque o tema era outro que não a diversidade.

Isso me fez pensar um pouco sobre a tal da representatividade.

Muita gente me diz que eu devo estar feliz porque agora existem mais gordas ganhando destaque por aí (apesar de ainda serem poucas, sim), mas eu só consigo pensar que não. Sim, temos um pouco mais de gordas ganhando destaque por aí hoje (e quase todas brancas), o problema é que elas continuam sendo gordas antes de serem mulheres.

Essa fala de “não é uma matéria sobre diversidade” foi o gatilho pra eu pensar a respeito disso, no fim das contas.

Acho que cada vez mais páginas feministas, blogueiras e até um ou outro programa de televisão chama a atenção pra aceitação do corpo, pra diversidade, pra importância da representatividade, e nessas horas lembram de nós, as mulheres gordas que raramente têm espaço na mídia. Mas se a gente olha de perto, pra falar sobre QUAISQUER OUTROS temas que interessam a TODAS as mulheres, é quase absoluto o número de magras “representantes” do conjunto de mulheres.

Eu estaria contente com a representatividade se as pessoas passassem a entender a gorda como um ser humano. Ao invés de lembrar de mulheres gordas só na hora de falar sobre aceitação, lembrasse que essa aceitação depende MUITO, mas muito MESMO,  da forma como mulheres aparecem na mídia.

Quando a gente pensa em ficção, quem são as personagens gordas? Ou a bonachona caricata que só come (e é sempre o “alívio cômico” quando não é já apresentada em séries ou filmes de comédia), a gorda desesperada por homem, a melhor amiga engraçada da protagonista, a criança gorda que sofre bullying e é perturbada, a adulta gorda com problemas de autoestima. São pessoas pra quem a vida gira em torno do peso, veja só. São estereótipos do que a sociedade imagina que é a pessoa gorda: a piadista, a engraçada ou a complexada. Acho que as únicas séries com mulheres gordas não-unidimensionais que eu já vi são Orange is the New Black e My Mad Fat Diary, veja bem.

E como é que deveria, ser, né?

Do jeito que é na vida real: deviam enfiar mais figurantes gordos em todos os lugares, só pra começar. Mas não a gorda velha e reclamona da fila da lotérica, só pessoas gordas existindo, mesmo, e fazendo coisas que todas as pessoas fazem: correndo no parque, sentadas na praça, passando pela rua. É uma coisa tão pequena e insignificante, né? Mas já é um passinho que, pra mim, mostra que gordos EXISTEM.

E deviam botar gente gorda como protagonista, também. E em papel secundário. Mas não sendo gorda, sendo gente. Fazendo tudo o que uma personagem magra faria. Com as mesmas dúvidas, os mesmos questionamentos, os mesmos problemas, a mesma rotina que a de um personagem que pode ser interpretado por um ator magro; e não vivendo em função de comida e/ou de se odiar por causa do peso. É verdade que o peso é uma coisa presente da vida de pessoas gordas. A gente enfrenta gordofobia, em maior ou menor escala, todos os dias. A gente sofre de não caber em uma cadeira ou de não poder comprar a roupa que quer porque não tem do nosso tamanho, a gente passa desconforto na hora de comer em público com medo de julgamento, sim, e vira e mexe a gente pira com insegurança sobre o próprio corpo. Mas a nossa vida não é só isso.

Eu estudo, cuido de dois gatos, tenho um marido, dou aulas, cuido da casa, tenho uma família passando por um período de adaptação com mudanças de rotina. Tenho problemas como qualquer pessoa magra que às vezes nem tangenciam a questão do peso, quem dirá passam por ela. Nem que eu quisesse poderia ser gorda nesse sentido caricato e raso 24h/dia, porque na maior parte do tempo sou pessoa. Que pesa mais do que um monte de gente, mas pessoa. E é assim que eu queria ver gordos na mídia, ué. Como pessoas que enfrentam crises que pessoas enfrentam, e não como gordos que só existem pra ser gordos.

Também seria bacana ver gente gorda ilustrando campanha que não tem nada a ver com aceitação. Ver gente gorda em ilustração feminista que fala sobre assédio. Ver gente gorda estrelando campanha de câncer de mama. Ver gente gorda discutindo sobre aborto. Ver gente gorda em quadrinhos que não a transforme no alvo da piada. De novo: ver gente gorda existindo, sendo real, sendo gente.

Em síntese: o que eu espero, quando penso em representatividade, é nada mais, nada menos do que a normalização do corpo gordo. Só isso. Mais nada. Só a ideia tão simples (e tão absurda) de que somos pessoas como qualquer pessoa magra. Não pessoas que existem com um propósito. Só pessoas, mesmo.

E o mais triste é pensar que é uma coisa tão simples e ao mesmo tempo é pedir TANTO…

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Coisinhas pontuais sobre a gordofobia

É claro que como frequentadora do nicho feminista anti-gordofobia da internet eu dei de cara com aquele texto maravilhoso do formador de opinião feministo e não gordofóbico, mas…

Não vou publicar o texto, só queria pontuar coisas que me deixaram meio passada:

1) “Não é normal ser gordo, a menos que seja algo hormonal”.

Eu tenho aquele problema de gente que fez Letras e começou a ler o dito pelo não dito em tudo. Ainda que em absolutamente lugar nenhum do texto dele esteja escrito isso, a ideologia, a cartilha que rege essa fala é aquela absoluta que toda mulher minimamente familiarizada com feminismo conhece: controle do corpo. Você não pode ser gorda se tem controle das suas escolhas e acabou ficando assim.

O que o senso comum diz sobre a gordura? Que é gente que come muito, indiscriminadamente. Não passa vontade. Ainda que pessoas gordas saibam que não é a verdade, que tem muita gente gorda que sofre (e muito) na relação com a comida, que tem transtornos alimentares que vão desde a compulsão à bulimia (não raro desencadeada por causa de tortas de chorume despejadas na cabeça da pessoa gorda, como esse texto desse moço, mas saúde mental é só um detalhe na vida do indivíduo, especialmente do gordo), que tem pessoas que comem por frustração, raiva ou tristeza e que nem todo gordo é gordo porque gosta de comer, o grosso do universo, ainda mais gente magra que quer ter um conceito raso sobre o que é ser gordo, acredita que é tudo sobre se esbaldar em comida gostosa e não passar vontade.

E aí, minha gente, a gente chega no pecado capital principalmente do feminino: não pode não passar vontade. Mulher não foi feita pra isso. Foi feita pra ser submissa e comportada. A mulher gorda e, pior, a gorda que celebra o próprio corpo, tá dizendo: comi o que quis, sim; saciei minhas vontades, sim; e NÃO TENHO ARREPENDIMENTO NENHUM. Essa mulher tá, na lista de mulheres horríveis, do ladinho daquela que grita pro mundo que gosta de dar e ninguém tem nada a ver com isso – a diferença substancial entre elas é que pra muito esquerdomacho feministo “a mulher que gosta de dar” é conveniente, mas a gorda com autoestima… pô, cara, ninguém é obrigado a ver gorda de biquíni, né?

E dá pra seguir a analogia: a “mulher que gosta de dar”, mas faz isso na surdina, aí tudo bem. É o tal do “dama na sociedade e puta na cama”. Essa pode. Mulher tem que ser assim mesmo, se comportar como princesinha na frente dos outros e virar furacão no quarto. É tipo a pessoa que come e não engorda. Se faz, mas ninguém percebe, não tem problema nenhum!

2) E já que mencionei isso acima, falam muito sobre a saúde quando vão cagar regra na vida do gordo, mas nunca pensam na saúde mental da pessoa gorda. E nunca pensam (já que todo mundo é tão maravilhoso e se preocupa tanto com a saúde, né?) que saúde mental reflete, e muito, no físico.

Não é raro que pessoas gordas, como já mencionei, tenham transtornos alimentares, tipo bulimia. Imagina, gordo com bulimia! Tem. E tem porque de tanto ouvir essas preocupações com saúde aí desenvolveu um transtorno, afinal, não pode comer, porque comer engorda e ser gordo, nossa, é a pior coisa do mundo. Aliás, não só pensando em bulimia, mas se a gente pensa de perto, a qualidade de vida de muitas mulheres gordas, graças à pressão social dos paladinos da saúde alheia, é miserável por causa de tantas dietas loucas que fazem perder peso logo (com reganho absurdo logo também).

Eu mesma: sou gorda desde sempre e não conheço uma vida sem dieta da sopa, dieta do suco, dieta da lua, dieta da proteína, dieta da USP. Com 15 anos de idade eu já tinha passado mal por causa dessas dietas mais vezes que consigo contar nos dedos. Lembro de episódios da adolescência de comentar com as amigas: “vou esperar entrar em férias pra fazer a dieta X, porque sei que vai me dar tontura e dor de cabeça e não vou aguentar vir pra aula”. Supondo que eu fosse uma adolescente HOJE e lesse esse texto “não-gordofóbico e só preocupado com a minha saúde” desse rapaz formador de opinião, duvido muito pouco que eu (e minhas amigas) procuraria outra dieta louca pra emagrecer muito rápido e, enfim, ser saudável.

Trocando em miúdos: falar pra pessoa gorda que ela precisa emagrecer por causa da saúde é BOSTA, em caixa alta mesmo. Não importa o quanto alguém tenha colesterol alto, gordura no fígado, hipertensão, problema nas articulações ou o diabo. Quem tem o direito de falar qualquer A é quem realmente se importa, e só. Eu mesma: aceito comentários de pouquíssimas pessoas sobre meu peso/minha saúde.

3) Ainda que num surto coletivo todas as pessoas gordas do mundo decidissem emagrecer, por qualquer razão que fosse, esse processo, se feito com consciência e de maneira saudável, é EXTREMAMENTE LENTO.

O que isso quer dizer?

Que pessoas gordas continuariam sendo gordas por muito tempo. E aqui vem uma novidade que pra muita gente deve ser meio chocante: a vida não entra em hiato esperando você se tornar quem você “deveria” (cof cof) ser. Em outras palavras: a vida de nenhuma pessoa gorda vai congelar e esperar ela ser uma pessoa magra pra continuar acontecendo. Então por que não celebrar o corpo? Por que não dizer “tá tudo bem, você pode ser linda e se amar assim”? Por que não nos dar a chance de escolher o que queremos vestir e, puxa vida, de sermos tratadas que nem seres humanos?

Mesmo nesse contexto de surto coletivo em que ser gorda seria transitório, qualquer pessoa merece ser tratada com dignidade e respeito nesse período de transição. Ninguém deveria viver se escondendo esperando um amanhã em que pode ser que seja outra pessoa pra existir, se fazer enxergar, se sentir representada e querida, sabe? E pedir por representatividade, pedir por pessoas gordas na mídia, sei lá, agindo com pessoas, dançando, namorando, estudando, perdendo hora pro trabalho e não sendo caricaturas de gente estúpida, é só isso: pedir pra entenderem que a gente também é gente.

Se o problema é que a gente é “doente”, gente que tem AIDS é doente e não é menos gente. Gente que tem câncer também. Dá pra botar uma lista enorme de doença aqui pra dizer: gente que tem alguma doença, veja bem, não é menos ser humano (aqui sempre tem alguém pra falar que só é gordo quem quer, então sugiro que volte ao tópico 1).

4) Por fim: sempre que aparece alguma modelo, atriz, cantora gorda por aí falam em “apologia à obesidade”.

Aqui dá pra pontuar duas coisas.

A primeira é que a gente tá vivendo, como gostam de dizer os paladinos da saúde do gordo, uma epidemia de obesidade, mas é muito recente a aparição na mídia de pessoas REALMENTE gordas, e não gorda-42. Então não sei se dá pra dizer que as pessoas andam engordando porque viram muito Mike & Molly ou pregaram uma foto da Tess Holliday na porta do armário, né, já que há pouquíssimos anos a gente abria revista e via que gorda era a Kate Winslet.

A segunda é que, veja bem, eu tenho amigas magras que acham a Tess uma mulher linda. Mas duvido, duvido muito, que alguma delas tem qualquer intenção de ter o corpo da Tess um dia. Até chutaria que muitas respiram aliviadas por não ter, naquela onda de que a Tess é linda, mas “pra mim não funcionaria”. E eu não julgo. A real é que é difícil mesmo ser gorda, ainda mais gorda do tamanho da Tess, com a segurança e autoestima que ela passa, e eu não pediria pra mulher nenhuma no mundo desejar isso pra si mesma sabendo o quanto a galera é cruel com gente gorda.

Mas a real é essa: mulher magra nenhuma que ache uma mulher gorda bonita, poderosa, quer ser igual a ela.

E o inverso?

Eu já perdi a conta de quantas vezes vi pessoas gordas com foto de gente magra de inspiração. Eu passei minha adolescência inteira mirando corpos em revistas e pensando “por que o meu não é assim?” Até hoje às vezes eu olho uma ou outra moça com cinturinha fina e quadril estreito na TV e lamento por não ter essa genética, ué. Minha vida seria tão mais fácil.

Então não, não tem nenhum tipo de apologia à obesidade em mulher gorda se curtindo aparecendo na mídia. O que tem é uma injeção de autoestima pra gente que nem eu, que ainda não é empoderada o bastante pra se curtir, mas vai enxergando que pode. Independente do corpo que eu queira ter um dia, se quero outro, como já disse ali em cima, o que me vale é hoje, e hoje o que eu tenho é esse, então hoje eu quero gostar desse.

Se mostrar gente gorda existindo parece nocivo porque “faz apologia” a qualquer coisa que você entenda que é ruim, tenta pensar em quanta gente evita sair de casa e tá só olhando o tempo passar por causa de uma mentalidade tão pequena, doente e burra igual a essa, sabe?

Pronto, era isso.

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Um textão em dois (quase três) atos

Primeira parte – queria fazer um comentariozinho não-solicitado: 2014 terminou e 2015 começou com MAIS UM CASO de revenge porn e até aí nada de novo sob o sol (infelizmente). Muitos otários achando que a vagabunda merece ser exposta porque quem mandou gostar de sexo e se deixar filmar, né? Pra alguns homens, mulher só pode gostar de sexo se for com ele, do jeito dele, atendendo a todos os fetiches dele, e é uma puta duma biscate piranhuda se de alguma maneira não for exatamente como ele quis (inclusive se não quiser dar pra ele, oras, onde já se viu não ceder). Enfim, nada de novo mesmo. Só que aí a galera tá cada vez mais linda e mais mobilizada, aparentemente (ou eu é que frequento os lugares certos da internet) e mddc como aparecem prints de ominho de merda sendo ominho de merda, julgando, apontando dedo, fazendo o que sabem fazer de melhor, enfim. E mddc como aparecem ominhos de merda falando “tira, não gostei de você ter mostrado meu rosto”.

Gente. Pra ominho que curte “lógica feminista” e se acha DEUS DA VERDADE E DA RAZÃO quando vê as publicações da page (que muitas vezes são bem “???”), falta lógica na vida de vocês. Por exemplo quando acham que tá certo expor alguma menina, divulgar inclusive página de facebook, por algo que ela fez na intimidade e vazou, mas acham MEU DEUS MUITO CRIMINOSO que páginas de apoio a essa vítima (sim, vítima) divulguem coisas que eles disseram em páginas abertas de redes sociais, usando os próprios nomes. Os caras dão tiros nos próprios pés e depois acham ruim. É muita merdice pra pouco ominho. Pra 2015, meus mais sinceros votos pra essa gente que fique CADA VEZ MAIS IMPOSSÍVEL encontrar uma mulher de respeito. Tomara mesmo que até o fim do ano eles estejam chorando muito no facebook que só cruzam com puta e vagabunda.

Porque isso significa que cada vez mais mulheres estão empoderadas e livres.

((sei que tem moça que concorda com esses caras, mas pra elas só desejo amor, mesmo, e que nunca cruze com um desses na vida porque ninguém precisa passar por relacionamento abusivo travestido de amor e segurança, não))

Segunda parte – faz tempo que acho que internet e militância combinam muito, ainda mais nessas pequenas coisas que são muito culturais e internalizadas. Discurso também é ação e, uai, o discurso também funciona na internet. Me incomoda um bocado, HÁ TEMPOS, esse papo de “você deveria estar fazendo alguma coisa de útil ao invés de só ficar reclamando no computador”, porque, muitas vezes e pra determinadas coisas, só “ficar reclamando no computador” é um negócio que surte um puta de um efeito na vida de muita gente.

Eu sei disso porque surtiu na minha. Eu conheci feminismo pela internet, eu conheci toda essa onda de body positive pela internet, eu ouvi falar sobre gordofobia como um termo real pela primeira vez na internet (eu mesma falava muito em “gordofobia” nos primeiros anos de faculdade, mas jurava pela deusa que era um neologismo meio patético que só eu usava). E não só aprendi muito com tudo isso na teoria pela internet, lendo blogs maravilhosos, tendo acesso a pessoas incríveis, como transferi muito pra minha vivência.

Em 2002, 2003, eu era adolescente, pesava 30kg menos do que peso hoje e ia à praia e não tirava a roupa. Dizia que era porque o sol podia me queimar, sei lá, mas era porque tinha vergonha da minha barriga e das minhas coxas. Em 2009, eu só usava calça de malha, legging ou vestido pra baixo do joelho, porque, com 20kg a menos do que tenho hoje, eu achava que comprar roupa não era um exercício pra gente gorda e eu merecia um pouco vestir só o que coubesse, já que eu “provoquei” aquilo.

Hoje eu tenho estrias na barriga, nas coxas, nos braços e usei meu primeiro biquíni. Hoje eu visto 52 e não uso, de jeito nenhum, a roupa “que me serviu” só porque coube em mim se não gostei de como vestiu meu corpo. E, sim senhores, foi graças à internet. Foi lendo blogueira feminista, blogueira que escreve sobre body positive, blogueira de moda plus size. E o primeiro passo pra isso veio lá do Lugar de Mulher, quando vi a Polly escrevendo que a gente precisa se cercar de “referências positivas”.

Então é claro que não acho que ficar “reclamando na internet” vá fazer preço de passagem baixar ou vá ajudar todos as pessoas que passam fome e são invisíveis pro resto do mundo. Mas existem coisas que mudam. Por isso ninguém deve parar. Eu é que não vou. Eu sei que eu já atingi também algumas pessoas, então não vou parar =)

A terceira parte é só uma partezinha – em 2015 vou tentar transferir todos os meus possíveis textões de facebook pra cá. Ninguém lê, mas deixa a rede social só pra foto de gatinho porque o povo lá é muito chato quando quer.

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O machismo, a gordofobia e uns etecéteras

Quando criei esse blog, juro que a intenção não era só divagar sobre a existência dx gordx, mas aconteceu que minhas reflexões de internet sempre acabam descambando pra esse ponto, então vamos pra mais mais do mesmo, dividido em duas partes:

Eu tinha escrito uma introdução enorme, mas vou resumir: a ideia geral do post é sobre a necessidade de se discutir, sim, a gordofobia, e não confundir isso com uma pauta ESSENCIAL e EXCLUSIVAMENTE do feminismo, ainda que os dois pontos se interseccionem (e muito). É também pintar um pouco a necessidade de se falar em autoestima da mulher gorda além da gordofobia (essa sim uma discussão só do feminismo), mas um pouco do “porque uma coisa não elimina nem tira a necessidade de se falar da outra”. Eu tinha contextualizado a discussão, mas o post demorou eras e ficou last week. Deixa pra lá. A ideia é atemporal (espero que por enquanto).

I. A Gordofobia

A gente ainda tem necessidade de se falar em gordofobia, sim. Por mais que se insista que a mulher gorda é mais oprimida do que o homem gordo (e a insistência é porque é, oras), a gordofobia existe pra todo mundo. Já comentei no twitter que isso é algo como o racismo: mulheres negras e homens negros são afetados por ele. De maneiras diferentes, mas são.

Homens gordos podem até ter um espaço social “abstrato” maior que o da mulher gorda, e vou chegar nisso depois. Mas a verdade é que homens gordos também passam, literalmente, apertos. Homens gordos, como mulheres gordas, também não cabem no mundo. Talvez homens gordos ricos possam se adaptar melhor a isso, mas mesmo assim: eles se adaptam, adaptam o mundo, mas ainda assim não estão ali porque tudo serve pra eles. Pessoas gordas, de um modo geral, entalam em catracas de ônibus. Pessoas gordas, de um modo geral, se sentam nos assentos minúsculos ou ficam em pé nos corredores dos mesmos ônibus, recebem aqueles olhares de reprovação, de “esse sujeito enorme tá ocupando ainda mais espaço desse lugar que já é apertado”. Sabe essas cadeiras que já vêm com o apoio pra livros e cadernos acoplado? Então, pessoas gordas, homens e mulheres, não cabem nelas. Não importa se é homem ou mulher, o gordo talvez precise de dois assentos no avião ou de um extensor do cinto. Qualquer pessoa gorda passa pelo constrangimento de olhar a cadeira de plástico e pensar “putz, isso não me aguenta”. Qualquer pessoa gorda passa pelo constrangimento de se espremer em uma cadeira com apoio para os braços e levantar com os quadris marcados porque elas apertavam.

Eu achava, aliás, que só mulheres gordas sofriam o desagrado de ter lojas específicas pra comprar roupas, porque a maior parte delas só confecciona pra magras. Mas homens gordos também passam por isso – homens jovens e gordos não têm o privilégio de vestir o que quiserem de lojas jovens, porque essas lojas também não têm numeração pra eles.

Como escrevi em outro post, pessoas gordas não cabem no mundo projetado pra gente magra. E isso não é uma questão exclusiva do feminismo. O recado é pra todos nós: quer viver confortável aqui? Perca peso. Emagreça. O erro é você. Daí a necessidade do termo “gordofobia”, de se discutir gordofobia, de desmistificar e, principalmente, deslegitimar o preconceito contra o gordo, que, soando repetitiva, é aquele um travestido de saúde e preocupação.

Mas junto disso, é claro, vem a outra parte.

II. “Orgulho Gorda”

A opressão que a mulher gorda sofre, é claro, vai além de tudo isso. Ela entra no aspecto do controle do corpo, da objetificação, da censura ao prazer feminino, da falta de representatividade na mídia, N fatores. Não é só uma questão de espaço físico e de questionamento do estilo de vida travestido de preocupação com saúde.

É mesmo sobre dizer o que você pode ou não pode ser.

É verdade que o ideal masculino costuma ser o de homem com corpo “saradinho”, ou definido. Mas eventualmente a gente tem personagens masculinos bem sucedidos representados por homens gordos, velhos e jovens, que não têm como mote o único fato de serem gordos. De fato, a única personagem masculina que eu lembro de ter esse conflito era o Hurley, vivido pelo Jorge Garcia em Lost (e era um conflito muito bem construído, não aquela porcaria rasa de “eu sou uma gorda infeliz e ninguém me ama”). E tem o Mike, em Mike & Molly, mas ali é quase uma caricatura, então não sei se conta. Atrizes gordas, por outro lado, em qualquer faixa etária, temos tão poucas.

E quase sempre interpretam não mulheres, mas GORDAS.

Então, veja bem, se o espaço físico, literalmente, nos é negado da mesma maneira, nossa existência social “repercute” de jeitos muito diferentes. A gente pensa e nem existe roupa de banho masculina pensada pra esconder a barriga, por exemplo. Não que nenhum homem gordo tenha vergonha do próprio corpo – não é isso. Essa questão é muito individual pra que se bata um martelo sobre ela. Mas mulheres – gordas, magras, negras, brancas – recebem muito, muito, muito mais censura do que homens. E mulheres gordas mais do que as magras (e gordas e negras mais do que as gordas e brancas e assim por diante).

Talvez porque nosso corpo, no fim das contas, mostre que entre se dar o prazer de comer, sim, e o de se punir, a gente ficou com a primeira opção. Isso é um negócio que eu meio que sempre tive em mente – e acho que muita mulher, gorda e magra, que pensa sobre o feminismo, também – e é completamente intrínseco à opressão do patriarcado, verdade. A gorda é só uma outra maneira de se representar a mulher pecadora. Só que desse pecado ninguém quer, porque de alguma maneira muito abstrata ele tá associado à insubmissão (oras, seja por escolha pelo prazer ou por problemas psicológicos, a ideia de caber numa calça menor pareceu menos tentadora do que pedaços de bolo, e a ideia que se faz da mulher ideal é a que opta – ou se controla o suficiente – pelo jeans menor). Em outras palavras: a gorda e a vadia estão ali, lado a lado. Só que ninguém quer, de fato, fazer essa associação.

Então, aqui entram todas as necessidades de body positve, de se afirmar enquanto mulher gorda, de botar um biquíni ou um top cropped e esfregar na cara do universo que vai ter barriga gorda de fora, sim, doa a quem doer. Ou, se não é pra tanto, botar regata, botar shortinho. Vai ter braço gordo, vai ter celulite, vai ter coxa raspando uma na outra. Vai ter cintura cheia de dobra sem cinta modeladora em vestido justo. E vai ter que engolir a gorda tendo autoestima, que em nenhuma pedra tá gravado que isso é privilégio magro.

Só que esse pensamento, veja bem, também pode ser complicado. Perigoso. E aí vem uma terceira parte não-premeditada:

3. O feminismo e a gordofobia

Falando desse jeito, dá a impressão que a opressão existe e vem só da parte mais conservadora da sociedade. Daquela galera que ainda não entende bem a necessidade de ativismos dum modo geral porque, independente de ocupar uma posição privilegiada ou não, acha que aquele mundo desigual já ficou no passado.

Só que não é bem assim. Gordofobia existe dentro de coletivos e vem de ativistas por quaisquer direitos. A gordofobia ainda é um preconceito extremamente legítimo e muita gente percebe muito pouco ou quase nada que tá lá sendo gordofóbicx.

Eu não gosto de apontar dedos pras pessoas e dizer que é ou não preconceituosx, seja qual for o preconceito. Acho que se a gente tá com boa vontade pra aprender, a gente tá vulnerável a pisar na bola, escorregar em muitos tomates e desconstruir as ideias que temos, e por isso não gosto de ser taxativa ao dizer “gordofóbicx de merda” pra ninguém, venha de onde vier (mas também tem limites, né). Então não vou discutir o fato de alguém ter ou não esse preconceito. A gente é criado pra ter e o importante é estar abertx à desconstrução.

Dito isso, volto ao ponto:

Em coletivos feministas, às vezes a gente vê as moças se defendendo de acusação de Homenzinho de Merda (“feminista é tudo gorda mal comida risos risos”) bradando aos quatro ventos que não é gorda, coisa nenhuma. Que é bonita. Que conhece muitas feministas lindas e “bem comidas”. Talvez nem elas percebam, mas olha a sutileza da coisa: cê que é gorda não serve pra ser bonita. Dá pra ir além: cê que é gorda tá ferrando a imagem da feminista, a gente aqui tem trabalho com esses caras associando nossa imagem com “gorda, feia e mal comida”.

Como eu disse: sei que não é ~de propósito~ pra desmerecer a gorda. Mas isso não muda o fato de que: acontece. E é chato. É opressor.

Vamos de novo: às vezes a gente vê tirinha feminista, vê imagem feminista, vê cartoon feminista, vê o diabo feminista. E geralmente a representação da mulher é de moça magra. Salvo naquelas exceções que a imagem num geral dialoga não só com o feminismo, mas com outras questões. A moça é magra, é branca, nunca é cadeirante ou usa muletas ou é amputada. É quase que uma ideia de que a mulher “comum” é aquela lá e as outras, vejam bem, não servem pra ser mulheres comuns exceto se lutando por suas próprias causas (a gordofobia, o racismo, o capacitismo, a transfobia etc.).

Em síntese: sim, todas somos oprimidas por um mesmo patriarcado que nos diz como devemos ser, como devemos agir, como nossos corpos precisam ser pra serem certos ou bonitos. Mas poucas de nós podemos falar essencialmente como “mulheres”, sem qualquer outro pormenor, na maioria dos nichos. E é por isso, e só por isso, que é necessário que trabalhe a autoestima da mulher gorda enquanto MULHER E GORDA, mas que não se pare de falar em gordofobia.

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(Mais um pouco) sobre a gordofobia

Esses dias li aquela declaração da Jennifer Lawrence sobre dever ser “proibido” chamar as pessoas de gorda. Porque isso é ofensivo e provavelmente ninguém gosta de ser chamada de gorda.

Independente das intenções da atriz, de quem é a Jennifer Lawrence na fila do pão ou do que ela “quis dizer” com isso, o fato é que o que ela disse exatamente é pra ninguém mais usar o termo “gorda” e pronto. Quando li essa declaração, eu fiquei meio chateada. Até entendi o que ela quis dizer, não sou burra, mas vou me ater ao que ela disse. Ela disse pra ninguém mais ser chamado de gorda. Mas eu e tantas outras moças que somos, de fato, gordas, então devemos ser chamadas de… quê?

Quer dizer, vai ter gente dizendo que não precisa chamar de gorda porque isso ofende.

Vai ter gente dizendo que dá pra chamar de “cheinha”, de “gordinha”. Mas a verdade é que tem gente (como eu) que é gorda e pronto.

Pensei por uns dias que só eu, e não era possível isso, tinha ficado incomodada com essa fala. Aí ontem pelo twitter encontrei esse texto, que, por sua vez, redirecionou a esse e, puxa, meu incômodo não era mais solitário. Não vou atacar a Jennifer Lawrence pessoalmente. Acho ela bastante “não cheira nem fede”. É uma boa atriz, é bonitinha, gosta de dizer que é gente como a gente mas não me convence e acabou aqui toda e qualquer referência específica a ela nesse post. Não quero atacar J. Lawrence porque ela não é uma exceção, como às vezes parece que é.

E aí calhou de tudo isso vir dias depois de eu ter assistido à série My Mad Fat Diary e ter ficado muito positivamente impressionada porque, pela primeira vez, dei de cara com uma personagem gorda que fugia dos estereótipos-padrão de gorda na mídia. Quem já viu a série (ou conhece o livro, que eu não conheço) sabe que a Rae é uma adolescente de 16 anos, gorda, com problemas com comida, mas cuja vida nem de longe gira em torno de compulsões alimentares e pra quem essas compulsões nunca viram gracejo porque, veja bem, elas de fato não têm a menor graça. E pra quem, também, todos os problemas adolescentes não são apenas e tão-somente “sou gorda”, mas problemas de qualquer ser humano de 16 anos somados àqueles por quais os seres humanos com sobrepeso também passam.

Ou seja: a série traz uma protagonista que é uma adolescente, mulher, cheia de neuras e problemas, muitos da idade, e que por acaso é gorda. Exatamente como a vida real de basicamente toda menina gorda por aí.

Digo porque até onde eu sei, até onde acompanho minha vida, até onde percebo a vida das minhas amigas gordas, por exemplo, somos pessoas antes de sermos gordas. E é sobre isso que tenho pensado:  sobre como a pessoa gorda na verdade é só gorda antes de ser pessoa, tanto na ficção como na vida real.

Quantas vezes começamos frases com “é gorda, mas…”?

Vou tentar ser prática (já que coesa tá difícil):

Várias pessoas me falam, quando toco no assunto da gordofobia, que “gente magra também sofre preconceito”. Gente, eu juro que eu entendo o ponto de quem fala isso. Já vi coleguinhas de escola sendo apelidadas de Olívia Palito e já vi muita moça reclamando que a calça 34 de determinada loja é muito grande pra ela e, por isso, tem que comprar roupa na seção infantil. O que todo mundo que diz isso precisa entender é que a hostilidade contra o gordo vai além de apelidos desagradáveis e não encontrar roupas adequadas (de fato, a gente vive num mundo tão surreal que é difícil um tipo de corpo pro qual as roupas fiquem realmente boas).

Exemplo número um, de situação atípica da vida real: há uns dias, fui ao Hopi Hari com o namorado e dois amigos, nós quatro gordos. Eu era a menor, porque sou baixinha, então proporcionalmente minhas medidas também eram ligeiramente menores. Ainda assim, todos os brinquedos, absolutamente todos, eram desconfortáveis para os nossos corpos. Vimos, inclusive, um cara precisar sair de um dos brinquedos, pouco antes da nossa vez, porque o cinto não fechava nele devido ao sobrepeso. Ok, existe o argumento de que é pra otimizar o espaço, tudo isso. Ainda assim, também existe uma limitação implícita: você, que é gordo, se quiser brincar em parques de diversões, vai precisar passar por situações vexaminosas, tudo bem? Claro que não tá tudo bem.

Exemplo número dois, situação análoga à anterior, mas muito mais “real”: ônibus urbano. Às vezes pego ônibus com a minha mãe, às vezes sozinha, mas sempre é um martírio. A catraca é o primeiro deles, dividir assento, o segundo. Assento com apoio pra braço, nem pensar. Se a pessoa que senta ao lado também é gorda, simplesmente não cabemos juntos no banco. É um constrangimento e um desconforto que, por mais que vida de magro também seja difícil, só gordos entendem. Semelhante a isso é entrar em alguns banheiros públicos ou pedir passagem em cinemas, teatros, etc. Poucos ambientes são projetados pra que a pessoa gorda se sinta confortável e não sinta que tá ocupando espaço demais ali, de forma que incomode os demais presentes.

Aliás, ainda sobre os ônibus: notei que alguns veículos já incluíram obesos na lista de prioridades pra assentos preferenciais. Estive na cidade de São Paulo em 2009 e isso já existia, mas aqui na minha terra ainda é um pouco novidade, não existe em todos os ônibus. Notem: ocupamos tanto espaço que é bom que tenha um assento especial pra gente. Pra não incomodar as pessoas, pra não bloquear o “tráfego” nos corredores, porque gordo só atrapalha. Vocês, que nunca foram gordos, podem achar que é implicância, que é coitadismo. Mas a verdade é que: não tem espaço pra gente no mundo. Literalmente, inclusive.

Exemplo número três: vamos falar sobre Melissa McCarthy. Acho a Melissa McCarthy maravilhosa, de verdade. Eu queria ser linda como ela, ou só um pouquinho do que ela é. Mas já ouvi um milhão de vezes que ela “é linda, mas / pena que é gorda”. Esse comentário não é privilégio da Melissa McCarthy, e eu sei que muita menina magra também escuta isso (“é linda, mas tá muito magrinha”). Mas nunca uma gorda escutou que é elegante o suficiente pra tentar ser modelo, por exemplo, no contexto “você é tão bonita; magrinha e elegante assim, deveria ser modelo”. Quando a moça é bonita e gorda, ser gorda é sempre uma adversidade, um porém, um empecilho pra beleza dela acontecer. Quando se é magra, ok, tem gente que vê empecilhos, mas de maneira geral é elegância.

Atrizes muito magras só chamam a atenção na mídia quando perdem peso bruscamente, como foi o caso da Angelina Jolie e de uma das gêmeas Olsen. Quando já se é muito magra, muitas vezes nem notam esse detalhe. Vejam Rose Leslie: nunca vi ninguém dizendo que ela é “linda, mas muito magra”. Nem deveriam, aliás, porque ninguém tá pedindo pra opinaram sobre o corpo dela.

Quando se é gorda, é a primeira coisa que notam. E muitas vezes só se notam que existe ali um corpo gordo. Uma pessoa comentou um gif em que aparecia a Melissa McCarthy esses dias falando: “olha que linda a Adele, ali”. Exceto por ambas serem gordas, não existe nenhuma semelhança entre a Melissa e a Adele. Mas, quando foi corrigida, a pessoa disse: “grande coisa, pra mim ainda é a Adele”. Ou seja: pessoas gordas, sobretudo, são todas iguais. Porque são todas gordas. E não é bem assim (eu bem queria que fosse, aliás, porque aí eu seria como a Adele, como a Melissa McCarthy, oras). Somos tão plurais quanto qualquer ser humano.

Acho que quando se fala em gordofobia e as “magras demais” tomam as dores, dizendo que também sofreram bullying e tudo, falta uma compreensão do quadro como um todo. Eu não deslegitimo o sofrimento individual de nenhuma mulher, magra ou gorda, mas a questão aqui vai além da individualidade: nós, gordos, simplesmente não temos permissão pra existir. Claro que deve ter sido doloroso pra qualquer menina ouvir piadinha e referência às pernas muito finas, e duvido que qualquer moça feminista que lute contra a gordofobia entenda como “frescura” esse tipo de sofrimento. Violência, física ou verbal, contra o corpo da mulher é um assunto sério, sim. Só que, veja bem, muitas meninas ficam doentes tentando ser magras, porque o mundo as aceita. Ninguém nunca morreu tentando ser gorda demais. Então, por mais que individualmente a gente compartilhe histórias de constrangimentos por causa dos nossos corpos, não é a mesma coisa.

A nós, que somos gordas (eu repito), não é dada a permissão de existir. O exemplo mais banal das roupas: quando se é magra e até o 34 fica grande, ainda existe a opção de comprar o 34 e ajustar. Quando se é gorda e até o maior número da loja fica pequeno, qual é a opção? Nós não temos espaço no mundo, porque somos consideradas espaçosas demais. Entalamos em catracas, em assentos, em bancos de lanchonetes, nas cadeiras das lojas da Tim e precisamos manobrar para entrar em cabines de banheiros públicos porque quem os projeta está passando um recado: vocês precisam diminuir pra caber na nossa realidade. Não queremos seus corpos gordos entre nós.

E não interessa se é uma questão de “otimizar espaço”. Enquanto a gente, que é gordo, existe, o espaço deveria nos acomodar também. Afinal, a gente compartilha dum mundo e, independente de ser uma escolha ou não o nosso tamanho (realmente não acho que uma pessoa gorda deva se justificar sobre ser assim ou assado porque gosta de comer ou porque é doente), esse mundo deveria estar apto pra nos receber como somos.

O pior é que muita gente insiste na ideia de que nós é que estamos erradas, nós é que devemos emagrecer, nós é que devemos mudar. Porque a gordura é errada, é nojenta, é absurda e de forma alguma que pode ser a identidade de um indivíduo.

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Essa vitória ou coisa que o valha

Tava eu serelepando por essa segunda casa que é a internet (eu disse segunda? Perdão. Por essa minha casa que é a internet) e por acaso vi que o Dance of Days toca aqui dia 22 agora. Não que eu tenha qualquer pretensão de ir ao show (tive nos primeiros três minutos, mas depois passou), até porque acho que perdi a paciência e passei do ponto desses shows muito… adolescentes.

Só que aí uma coisa vem com a outra e me dei conta que, sei lá, não tenho datas precisas, mas certamente faz uns 10 anos que fui ao primeiro show do DoD na vida (depois devo ter visto mais uns 5). Eu tinha 14, 15 anos, veja bem, aqueles tempos que realmente meus passos não diziam absolutamente nada. Não que seja alguma coisa realmente importante, mas é engraçado pensar no quanto uma banda que você conheceu por acaso lá no começo do Ensino Médio e que foi sua banda favorita por todo o Ensino Médio de repente já marcou e fez parte de tantas fases que somam quase metade da sua vida – e é mais engraçado ainda porque eu nunca deixei de gostar ~genuinamente~ do DoD, como aconteceu com Fistt, Sugar Kane e umas mil bandinhas daquelas épocas, que hoje só gosto mesmo pela nostalgia, e continuei acompanhando, ainda que de longe, todo o trabalho feito (e não abandonei nem depois daquela porcaria que foi A Dança das Estações, veja bem).

É que aí a gente começa a lembrar de todas as coisas que passaram e que tiveram a mesma banda, nem sempre as mesmas músicas, como trilha sonora. O dia que aquela amiga de longe mas sempre uma das mais queridas ligou pra falar sobre “Tijolos Amarelos” e o dia que você e seu grupinho de amigas do Ensino Médio se deu conta que “Se essas paredes falassem” era o nome de um filme sobre homossexualidade, daí “onde Marte ama Marte e Vênus pode passear de mãos dadas com Vênus sem se preocupar” (se não me engano, aqui o nome do filme é “O Preço de uma Escolha”). O dia que seu então melhor amigo diz jubilante que descobriu quem é “Caulfield” da música e que conseguiu “O Apanhador no Campo de Centeio” pra ler, e como você se apaixonou e detestou Holden Caulfield com a mesma intensidade. E quando você ganhou “A Metamorfose” desse mesmo amigo e depois ficou feliz da vida porque reconheceu a referência de “Quem Vai Limpar o Quarto de Gregor Samsa” antes de precisar procurar por ela (PAUSA DRAMÁTICA: acabei de entender porque sempre escrevo o nome da Sansa Stark com M). E também todas as vezes que você olhou pra “Revolução dos Bichos” e cantarolou sobre os porcos tomarem a casa dos senhores, e toda vez que olhou pra “1984” e pensou que “não encontrou recados nem mensagens pra fugir outra vez”, e se deu conta da bagagem cultural que adquiriu na sua besteira adolescente. E como “Coração de Tróia” só teve valor mesmo foi na faculdade.

O negócio é que nessa época toda que minha música tinha trilha sonora, eu achava que as coisas seriam muito piores pra mim do que realmente foram. A emuxice de final de ano me fez pensar nessas coisas e pensar em “tanto tempo assim acompanhando uma banda só pô” me fez nostálgica, então dá pra aproveitar o momento pra essa mini-reflexão.
Nem sei há quantos anos não faço essa retrospectiva de final de ano. Mesmo esse, que foi um ano de coisas ótimas, vai passar sem.

Em parte porque tenho preguiça, e em parte porque não tenho vontade de ir pro passado se o presente tá tão bacana (e talvez pela primeira vez diga isso sinceramente).

Então encerro daquele jeito que esperei 10 anos pra poder usar esse trecho num contexto em que fosse verdadeiro, e aqui está:

“Brindamos mil paixões e dançaremos
Porque hoje o sol nasceu
Declarando o fim dessas lágrimas
E eu vou jogar aos céus meus braços
E não olhar mais pra trás!”

Faltou coesão, faltou coerência, faltou progressão, faltou muita coisa nesse texto. Mas não tem problema.

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A tal da Consciência Negra

Depois de amanhã, 20 de novembro, é Dia da Consciência Negra e eu já espero ver em redes sociais todas as imagens com o Joaquim Barbosa e o Morgan Freeman (insira qualquer outro negro-referência aqui) dizendo que não tem porque um dia “discriminatório” como o da Consciência Negra visto que todos somos humanos. Tipo acontece no Dia da Mulher e tipo muito idiota vem falar sobre as Paradas do Orgulho GLBTT.

Todo mundo sabe que 20 de novembro foi o dia da morte do Zumbi dos Palmares. Todo mundo sabe quem foi Zumbi. Todo mundo sabe do histórico de escravidão do nosso país. Todo mundo pode espiar dentro de uma universidade e ver que a “elite intelectual” ainda é branquinha. Todo mundo pode dar uma olhada em um presídio e ver que tá abarrotado de negros. Todo mundo é culpado se um dia já atravessou a rua porque “tinha um neguinho mal vestido meio esquisito parado na calçada” (às vezes é um branquinho, mas vamos ser honestos pra manter um pouco de dignidade e confessar: quantas vezes?). Todo mundo já julgou o funk quando era “som de preto, de favelado”. Muita gente já disse “pra umx negrx, até que elx é bonitx”. Muita gente já chamou cabelo afro de cabelo ruim, já apontou e riu de algum black power. E a gente sabe muito bem que tá muito mais seguro contra a truculência policial quando é branco – aqui vão dizer que não, que polícia persegue pobre. E eu nem gosto mesmo de polícia e acho mesmo que eles são muito menos seletivos na hora de escolher quem vão pegar; é só o pobre e sem influência.

Por acaso, a maior parte dos pobres no Brasil é negra. Por acaso, por mera coincidência, é negro quem ocupa esses empregos aí que ninguém quer de faxineirx, de porteirx, de segurança, de gari, de lixeiro. E ainda tem gente que vem dizer que o médico não pode ter cara de “empregada doméstica” porque a aparência é cartão de visita. Quer dizer: além dx negrx (ou dx pardx, tudo bem) ser deixadx de lado pra ocupar empregos considerados menores, x negrx é feio porque o padrão é eurocêntrico então só pele branquinha tem vez.

“Aff, não posso chamar um preto de macaco que é racismo; mas a vida inteira me tiraram de polaco, de rato de laboratório, em referência à minha pele muito branca”. É, cara, é racismo e deixa eu contar uma novidade: a vida inteira também riram da minha pele muito branca. Bronzeado palmito, sinalizador de avião. Mas nunca, em nenhuma hipótese, sob nenhuma circunstância, a cor da minha pele me fez ser vítima de algum preconceito genuíno, que me trouxesse algum “dano” ou alguma “sequela”. De fato, ao longo da vida, eu ouvi muito mais elogio a todas as minhas referências europeias (“nossa, como eu queria ter essa pele branquinha, que lindo!”; “eu com esse cabelo nunca reclamaria!”; “seus olhos ficam mais claros no sol?” – e não, eu nem tenho olhos claros!) do que alguma hostilidade. Quero dizer: uma coisa é seus amigos babacas pegarem no seu pé pela cor da sua pele; outra é parte da população realmente acreditar que você é menos que alguém por causa da cor da sua pele.

Eu, pelo menos, nunca vivi esse tipo de preconceito. E nunca vou viver. E, por isso mesmo, nunca vou dizer que racismo é besteira, histeria ou que não existe, visto que eu não tenho a menor ideia do que é, na prática, ser negrx nesse país.

“Pff, eu também sofro preconceito porque sou pobre; sou branco e nenhuma data me beneficia”. Nenhuma além dos 365 dias do ano que são sobre você que é branco. Se sua vida já foi difícil sendo branco e pobre, imagina sendo preto e pobre. Imagina com muita gente te discriminando por ser pobre E por ser negro. Por mais que seja difícil entender: as duas coisas estão vinculadas, mas não são iguais. Vamos colocar dessa forma: você, branco e pobre, pode sofrer discriminação por ser pobre; o seu vizinho preto e também pobre pode sofrer discriminação porque é preto E porque é pobre. Se vocês fossem vizinhos num bairro de elite, as chances de você ser confundido com o seu funcionário – motorista, faxineira – seria quase nula; a do seu vizinho, só porque ele nasceu com mais melanina do que você, ah, como seria maior.

A gente vê que existe racismo, que existe, sim, porque celebrar um dia da consciência negra, quando pensa que todo negro que conseguiu uma ascensão social é celebrado (Morgan Freeman, Joaquim Barbosa). Porque lá no fundo a gente sabe, mas quer fingir não saber, na hora de dizer que todos somos humanos e devemos ser tratados iguais, que o mundo nos fez desiguais – e a cabe a qualquer um de nós reconhecer essa desigualdade pra desconstrui-la. A gente celebra o negro que “subiu na vida” porque sabe que a sociedade já garante esse direito ao branco, mas exige do negro heroísmo pra consegui-lo.

E deixa eu contar um negócio: guardar isso lá no baú das coisas que preferimos não saber não vai fazer a ordem mudar, a desigualdade desaparecer.

Não existe a menor lógica em dizer que somos todos iguais, muda só a quantidade de melanina na pele, quando se é branco e tem uma pele com melanina de menos pra receber aí o racismo. A consciência negra, a questão da cota pra negros, isso não é sobre a gente que é branco, isso não é sobre as nossas dificuldades enquanto brancos nesse mundo politicamente correto. Isso é sobre preconceito e quem sabe mais do preconceito racial não sou eu ou você que é tão branco quanto eu – consequentemente, a gente que não pode dizer quem é ou não é igual, porque pra gente é fácil e simples.

É verdade que somos mesmo todos humanos e quando morrermos vamos todos virar a mesma coisa, e é verdade que dessa perspectiva somos todos iguais. Mas enquanto seres sociais, somos diferentes, e essa diferença tem que ser celebrada, tem que ser pensada, tem que ser repensada e tem que ser vista e entendida como diferença que agrega, não que segrega.

Enquanto segregar, pra mim parece muito óbvio que é necessário um dia pra reafirmá-la.

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A gorda da novela

Faz um tempo que comecei a acompanhar a novela das 9, “Amor à Vida”. Nunca vejo desde o começo porque começo de novela é sempre aquele “é…”, não empolga, não embala, não dá gosto, enfim. Só pra constar: também nem acho que alguém é mais ou menos inteligente porque vê novela ou não. Gente burra existe aos montes e muitas batem no peito pra falar que nunca veem TV aberta, veja bem. Mas não é meu foco, não quero discutir intelecto de quem vê novela.

Quero dizer só que, por motivos óbvios, me chama muito a atenção Perséfone, a personagem da Fabiana Karla, a gorda. Não porque um roteirista decidiu incluir a gorda na sua trama, mas também porque o fez de forma extremamente estereotipada e à parte do mundo: a Pê é a gorda num universo paralelo onde todos são lindos, magros, ultramaquiados pra não parecerem imperfeitos em nossas TVs de alta definição, sempre de cabelos arrumados. A Pê é a gorda estereotipada porque é jovem, mas, veja bem, até a Susana Vieira anda meio gorda só que ninguém repara (porque teoricamente ela é ryca, diva, poderosa, ex-esposa do chefão e o conflito da personagem é ser velha).

A Pê é uma gorda num mundo irreal em que todo mundo só repara nela por essa característica: “a gorda”. Notei, nessas semanas que tenho acompanhado a novela, que é por esse tipo de autopercepção que a personagem – que, claro, nem é tão desenvolvida assim, mas a gente se esforça – tem passado. Sei que nos primeiros capítulos – os que eu nem acompanhei – ela era uma virgem caricata e desesperada pra conseguir um homem, mas ninguém a queria por ser gorda. Peguei por cima que ela emprestou o apartamento pros amigos – magros e lindos – transarem e ficava incomodada com isso, mas se resignava porque ela é a gorda e, na concepção dela e do resto do núcleo, gorda não precisa disso. E aí ela fica chateada, bota tudo pra quebrar, manda os amigos embora e de repente tem um bonitão querendo namorar com ela e todo aquele discursinho “mas Daniel, eu sou gorda… gorda só serve pra ser a amiga…” e “eu sei, Pê, mas é besteira isso, eu gosto de você pra valer”.

O que me incomoda é que, por mais interessante que seja alguém ter colocado na cota uma gorda ao invés do negro, a situação toda é tão irreal, tão forçada, tão esquisita que parece mesmo que vida de gordo é isso aí. E, gente, se tem gordx que vive em “friendzone“, desculpa o choque de realidade, mas tem magrx que vive a mesma situação. A novela faz parecer que o mundo é essa dicotomia de gordxs e magrxs, e essxs segundxs é que estão por aí vivendo, namorando, transando, indo a festas, bebendo com amigxs, enquanto xs primeirxs são aquelxs que ficam esperando pra ouvir as histórias. É como se a vida de quem é gordx fosse menos vivida por causa duns quilos a mais.

Só que aí a gente pensa na vida real e a gente vê que, putz, preconceito existe, sim, mas estamos dissolvidxs por aí. Não existe só UM(a) GORDX pra um núcleo todo de gente magra, linda e perfeita, existem nuances, existem xs babacas e xs não babacas, que se incomodam muito pouco com o tamanho das calças alheias – diferente do que a televisão tem mostrado, que existe A GORDA e a corja de imbecis que dizem “PUTZ, É A GORDA, CARA! CÊ TÁ PEGANDO A GORDA!”

“Ah, mas Ana, existe preconceito…”

E cê vem falar pra mim, “a gorda” desde que me entendo por gente? O preconceito tá aí, é verdade. Tá aí quando você se constrange porque entalou numa catraca, tá aí quando o assento do ônibus é pequeno demais pra você e tá MUITO aí quando algum(a) palhaçx diz em rede social que gordx ocupa muito espaço. Tá aí quando você toma, sim, um toco na balada por causa do seu peso, quando dizem “tem um rosto lindo, podia emagrecer um pouco”, tá aí quando cagam regra no seu corpo e travestem de discurso de saúde, tá aí quando você vai comprar calça jeans e a loja acha que “plus size” acaba no tamanho 48 – em qual começou? E tá aí quando te olham atravessado por você dizer “meu corpo é minha resistência, sim”, por você ser gordx e namorar, sair, se divertir e viver como se, olha que abuso, não fosse gordx. O preconceito tá aí quando você assume que é gordx porque gosta de comer, porque não tem escrúpulo em se dar a esse prazer, e não finge que é um distúrbio (percebam como sempre tá errado ser gordx basicamente PORQUE QUER), o preconceito tá aí quando você é gordx e tem a audácia de botar uma roupa de praia, uma bermuda ou um vestido e mostrar suas costas, seus braços ou sua barriga, mais obscena do que qualquer parte do corpo de quem é magrx.

Mas não é porque o preconceito existe que vida de gordx é regada a preconceito, é centrada em preconceito, é vivida no preconceito. Eu vivo contornando preconceitos: tenho até a ousadia de me sentir bonita. Também sou cantada na rua (em tempos de “chega de fiu fiu”, é bom dizer: não, não gosto) mesmo meu corpo sendo tão errado e inadequado. Me dou ao luxo de escolher minhas roupas e não é porque sou gorda que não tenho um namorado – que gosta de mim assim, mesmo.

Se por um lado é bacana que a novela tente inserir “a gorda” ali na sua trama, é completamente absurdo mostrar pelo viés da aberração, do preconceito. Muita gente acha engraçado, não entende que o ponto é muito mais crítico. “A gorda” acabar com o bonitão, no fim, vai ser a mesma repercussão daquela outra novela em que a personagem da Cláudia Gimenez acabava com o Gianecchini: ai, que absurdo, a gorda sendo feliz. Mas ela é GORDA! E isso é o que a novela e qualquer outra abordagem de gorda devia trazer, se quer brincar de nos fazer refletir sobre preconceitos: a gorda sendo feliz, desde o começo; a gorda contornando os preconceitos de maneira crítica, não como chacota; a gorda vivendo como qualquer outro personagem, e não como “a gorda”.

Porque no fim é isso que é sobre ser gordx: mesmo com os ônus, todo dia é uma luta pra viver como qualquer personagem, e nos colocar em posição tão diferente, oh, não ajuda nada.

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