Embalagens

Aí que ontem tive uma epifania. Duas meninas passaram por mim, naquele estilo todo “mama I wanna be rocker”, cabeça com a lateral raspada, esse All Star “iate” que não sei como chama hoje, shortinho desfiado, meia calça rasgada, camiseta “podrinha”, e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que, pelo sim, pelo não, gente discreta é muito mais legal.

Ok, fashionistas dirão que roupa é uma forma de dizer ao mundo quem você é, uma forma de expressão. Juro que não me importo, já que sou só uma pessoa formada em Letras que usa os mesmos tênis e as mesmas camisetas da época do Ensino Médio, e não entendo nada do conceitual ou do que deveria ver em moda e nas roupas alheias. O que vejo, do auge do meu desconhecimento, é só gente estereotipada e sem graça, que quer dizer nas roupas tudo o que ouve, lê, joga, acredita e é, mas odeia ser julgada por aparências se esse julgamento for diferente do que ela se propôs a receber.

Aqui faço uma ressalva: não me oponho a camisas de banda, de jogo, de livro, de cinema, de religião ou de visão política, nem acessórios no geral, afinal… quem nunca vestiu uma dessas? Me oponho só ao traje completo. E não to dizendo aqui que a pessoa que escolhe assumir pra si uma identidade e mostrar isso nas roupas não está sendo autêntica. Nah, nada disso. O que quero dizer é que eu, e provavelmente só eu, acho completamente desinteressante pessoas que se apresentam já com uma imagem pré-formada.

Só porque você já colhe algumas informações sobre ela, que podem ou não induzir ao preconceito, sem trocar duas palavras. Meio excesso de coisa, sabe? Meio equivalente a deixar tudo nas redes sociais bastante explícito e tirar completamente a graça de descobrir aos poucos quem é esse alguém? De verdade, eu não me lembro da última vez que fiz novos amigos fora da internet, mas sempre tenho a sensação de que pessoas vestidas de forma extremamente discreta e que de repente surpreendem dizendo que gostam dos mesmos filmes que você são muito mais legais do que aquelas que escrevem na testa a que vieram.

Mas respeito, é claro. Já disse que não acho que seja aí uma falsidade, só não acho interessante.

E, de toda forma, usar jeans e camiseta do Ensino Médio ou vestido e sandália também induzem ao preconceito. E talvez também diga algo a meu respeito, tipo que não quero que saibam quem eu sou por dentro, só porque não interessa pra toda a parcela do mundo que não me conhece. É.

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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Uma resposta para Embalagens

  1. Luís disse:

    Nem me fale dessas embalagens. O engraçado é que eu penso em embalagens de produtos mesmo ou em estantes – porque tem pessoas que são estantes pras marcas, né, e aí entram conceitos e estilos de vida como marcas também – e percebo que o mundo tá mais anos oitenta, com aquele escândalo visual que procurava negar os estilos da década passada – como as discotecas e os hippies, por exemplo – e criar novos estilos que acabaram virando o pop, o grunge e tal. Os adolescentes têm de vestir todas as suas ideologias idiotas de uma vez só, porque parece imprescindível deixar claro tudo aquilo que você curte e aprova ao mesmo tempo. Aí eu me lembro das embalagens e penso naqueles pacotes de batatinha frita com arte minimalista que têm tipo uma cebolinha num fundo branco ou um fio de azeite escorrendo delicadamente e sempre uma fonte fina e requintada contrastando com o pacote ao lado, que precisa ter todas as cores do mundo, mil coisas escritas em balões e estrelas e uma “galera” comendo e curtindo a batata, convidando o comprador a participar de uma promoção pra aparecer num programa idiota qualquer da MTV e postar no twitter qual é a sensação de comer a batata X com #hmmbatatadelicia e concorrer a quinze iPads. É a diferença entre o adolescente que tem ideologias, sabe falar delas, mas não vive no momento imediato pra elas como se negá-las ou mudá-las ou comportar-se “fora” delas fosse acabar com sua vida como o sol costumava acabar com a vida dos vampiros da nossa infância e adolescência e o adolescente estúpido que precisa deixar claro que seu estilo de vida é o norte que guia toda e qualquer decisão estúpida que ele toma na vida estúpida dele e acha que a melhor forma de fazer isso é nas roupas ou no instagram ou em qualquer outra rede social absurda. E aí acaba que todo mundo quer ser autêntico, mas o autêntico é igual pra todos e o diferente – que era a coisa boa de ser até um tempo atrás – vira o igual e aí o bom de verdade é ser comum. No entanto, talvez minha reflexplosão revoltada seja só a fome, a dor de cabeça e a insatisfação com a vida, o universo e tudo mais.

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