A gorda da novela

Faz um tempo que comecei a acompanhar a novela das 9, “Amor à Vida”. Nunca vejo desde o começo porque começo de novela é sempre aquele “é…”, não empolga, não embala, não dá gosto, enfim. Só pra constar: também nem acho que alguém é mais ou menos inteligente porque vê novela ou não. Gente burra existe aos montes e muitas batem no peito pra falar que nunca veem TV aberta, veja bem. Mas não é meu foco, não quero discutir intelecto de quem vê novela.

Quero dizer só que, por motivos óbvios, me chama muito a atenção Perséfone, a personagem da Fabiana Karla, a gorda. Não porque um roteirista decidiu incluir a gorda na sua trama, mas também porque o fez de forma extremamente estereotipada e à parte do mundo: a Pê é a gorda num universo paralelo onde todos são lindos, magros, ultramaquiados pra não parecerem imperfeitos em nossas TVs de alta definição, sempre de cabelos arrumados. A Pê é a gorda estereotipada porque é jovem, mas, veja bem, até a Susana Vieira anda meio gorda só que ninguém repara (porque teoricamente ela é ryca, diva, poderosa, ex-esposa do chefão e o conflito da personagem é ser velha).

A Pê é uma gorda num mundo irreal em que todo mundo só repara nela por essa característica: “a gorda”. Notei, nessas semanas que tenho acompanhado a novela, que é por esse tipo de autopercepção que a personagem – que, claro, nem é tão desenvolvida assim, mas a gente se esforça – tem passado. Sei que nos primeiros capítulos – os que eu nem acompanhei – ela era uma virgem caricata e desesperada pra conseguir um homem, mas ninguém a queria por ser gorda. Peguei por cima que ela emprestou o apartamento pros amigos – magros e lindos – transarem e ficava incomodada com isso, mas se resignava porque ela é a gorda e, na concepção dela e do resto do núcleo, gorda não precisa disso. E aí ela fica chateada, bota tudo pra quebrar, manda os amigos embora e de repente tem um bonitão querendo namorar com ela e todo aquele discursinho “mas Daniel, eu sou gorda… gorda só serve pra ser a amiga…” e “eu sei, Pê, mas é besteira isso, eu gosto de você pra valer”.

O que me incomoda é que, por mais interessante que seja alguém ter colocado na cota uma gorda ao invés do negro, a situação toda é tão irreal, tão forçada, tão esquisita que parece mesmo que vida de gordo é isso aí. E, gente, se tem gordx que vive em “friendzone“, desculpa o choque de realidade, mas tem magrx que vive a mesma situação. A novela faz parecer que o mundo é essa dicotomia de gordxs e magrxs, e essxs segundxs é que estão por aí vivendo, namorando, transando, indo a festas, bebendo com amigxs, enquanto xs primeirxs são aquelxs que ficam esperando pra ouvir as histórias. É como se a vida de quem é gordx fosse menos vivida por causa duns quilos a mais.

Só que aí a gente pensa na vida real e a gente vê que, putz, preconceito existe, sim, mas estamos dissolvidxs por aí. Não existe só UM(a) GORDX pra um núcleo todo de gente magra, linda e perfeita, existem nuances, existem xs babacas e xs não babacas, que se incomodam muito pouco com o tamanho das calças alheias – diferente do que a televisão tem mostrado, que existe A GORDA e a corja de imbecis que dizem “PUTZ, É A GORDA, CARA! CÊ TÁ PEGANDO A GORDA!”

“Ah, mas Ana, existe preconceito…”

E cê vem falar pra mim, “a gorda” desde que me entendo por gente? O preconceito tá aí, é verdade. Tá aí quando você se constrange porque entalou numa catraca, tá aí quando o assento do ônibus é pequeno demais pra você e tá MUITO aí quando algum(a) palhaçx diz em rede social que gordx ocupa muito espaço. Tá aí quando você toma, sim, um toco na balada por causa do seu peso, quando dizem “tem um rosto lindo, podia emagrecer um pouco”, tá aí quando cagam regra no seu corpo e travestem de discurso de saúde, tá aí quando você vai comprar calça jeans e a loja acha que “plus size” acaba no tamanho 48 – em qual começou? E tá aí quando te olham atravessado por você dizer “meu corpo é minha resistência, sim”, por você ser gordx e namorar, sair, se divertir e viver como se, olha que abuso, não fosse gordx. O preconceito tá aí quando você assume que é gordx porque gosta de comer, porque não tem escrúpulo em se dar a esse prazer, e não finge que é um distúrbio (percebam como sempre tá errado ser gordx basicamente PORQUE QUER), o preconceito tá aí quando você é gordx e tem a audácia de botar uma roupa de praia, uma bermuda ou um vestido e mostrar suas costas, seus braços ou sua barriga, mais obscena do que qualquer parte do corpo de quem é magrx.

Mas não é porque o preconceito existe que vida de gordx é regada a preconceito, é centrada em preconceito, é vivida no preconceito. Eu vivo contornando preconceitos: tenho até a ousadia de me sentir bonita. Também sou cantada na rua (em tempos de “chega de fiu fiu”, é bom dizer: não, não gosto) mesmo meu corpo sendo tão errado e inadequado. Me dou ao luxo de escolher minhas roupas e não é porque sou gorda que não tenho um namorado – que gosta de mim assim, mesmo.

Se por um lado é bacana que a novela tente inserir “a gorda” ali na sua trama, é completamente absurdo mostrar pelo viés da aberração, do preconceito. Muita gente acha engraçado, não entende que o ponto é muito mais crítico. “A gorda” acabar com o bonitão, no fim, vai ser a mesma repercussão daquela outra novela em que a personagem da Cláudia Gimenez acabava com o Gianecchini: ai, que absurdo, a gorda sendo feliz. Mas ela é GORDA! E isso é o que a novela e qualquer outra abordagem de gorda devia trazer, se quer brincar de nos fazer refletir sobre preconceitos: a gorda sendo feliz, desde o começo; a gorda contornando os preconceitos de maneira crítica, não como chacota; a gorda vivendo como qualquer outro personagem, e não como “a gorda”.

Porque no fim é isso que é sobre ser gordx: mesmo com os ônus, todo dia é uma luta pra viver como qualquer personagem, e nos colocar em posição tão diferente, oh, não ajuda nada.

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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