A tal da Consciência Negra

Depois de amanhã, 20 de novembro, é Dia da Consciência Negra e eu já espero ver em redes sociais todas as imagens com o Joaquim Barbosa e o Morgan Freeman (insira qualquer outro negro-referência aqui) dizendo que não tem porque um dia “discriminatório” como o da Consciência Negra visto que todos somos humanos. Tipo acontece no Dia da Mulher e tipo muito idiota vem falar sobre as Paradas do Orgulho GLBTT.

Todo mundo sabe que 20 de novembro foi o dia da morte do Zumbi dos Palmares. Todo mundo sabe quem foi Zumbi. Todo mundo sabe do histórico de escravidão do nosso país. Todo mundo pode espiar dentro de uma universidade e ver que a “elite intelectual” ainda é branquinha. Todo mundo pode dar uma olhada em um presídio e ver que tá abarrotado de negros. Todo mundo é culpado se um dia já atravessou a rua porque “tinha um neguinho mal vestido meio esquisito parado na calçada” (às vezes é um branquinho, mas vamos ser honestos pra manter um pouco de dignidade e confessar: quantas vezes?). Todo mundo já julgou o funk quando era “som de preto, de favelado”. Muita gente já disse “pra umx negrx, até que elx é bonitx”. Muita gente já chamou cabelo afro de cabelo ruim, já apontou e riu de algum black power. E a gente sabe muito bem que tá muito mais seguro contra a truculência policial quando é branco – aqui vão dizer que não, que polícia persegue pobre. E eu nem gosto mesmo de polícia e acho mesmo que eles são muito menos seletivos na hora de escolher quem vão pegar; é só o pobre e sem influência.

Por acaso, a maior parte dos pobres no Brasil é negra. Por acaso, por mera coincidência, é negro quem ocupa esses empregos aí que ninguém quer de faxineirx, de porteirx, de segurança, de gari, de lixeiro. E ainda tem gente que vem dizer que o médico não pode ter cara de “empregada doméstica” porque a aparência é cartão de visita. Quer dizer: além dx negrx (ou dx pardx, tudo bem) ser deixadx de lado pra ocupar empregos considerados menores, x negrx é feio porque o padrão é eurocêntrico então só pele branquinha tem vez.

“Aff, não posso chamar um preto de macaco que é racismo; mas a vida inteira me tiraram de polaco, de rato de laboratório, em referência à minha pele muito branca”. É, cara, é racismo e deixa eu contar uma novidade: a vida inteira também riram da minha pele muito branca. Bronzeado palmito, sinalizador de avião. Mas nunca, em nenhuma hipótese, sob nenhuma circunstância, a cor da minha pele me fez ser vítima de algum preconceito genuíno, que me trouxesse algum “dano” ou alguma “sequela”. De fato, ao longo da vida, eu ouvi muito mais elogio a todas as minhas referências europeias (“nossa, como eu queria ter essa pele branquinha, que lindo!”; “eu com esse cabelo nunca reclamaria!”; “seus olhos ficam mais claros no sol?” – e não, eu nem tenho olhos claros!) do que alguma hostilidade. Quero dizer: uma coisa é seus amigos babacas pegarem no seu pé pela cor da sua pele; outra é parte da população realmente acreditar que você é menos que alguém por causa da cor da sua pele.

Eu, pelo menos, nunca vivi esse tipo de preconceito. E nunca vou viver. E, por isso mesmo, nunca vou dizer que racismo é besteira, histeria ou que não existe, visto que eu não tenho a menor ideia do que é, na prática, ser negrx nesse país.

“Pff, eu também sofro preconceito porque sou pobre; sou branco e nenhuma data me beneficia”. Nenhuma além dos 365 dias do ano que são sobre você que é branco. Se sua vida já foi difícil sendo branco e pobre, imagina sendo preto e pobre. Imagina com muita gente te discriminando por ser pobre E por ser negro. Por mais que seja difícil entender: as duas coisas estão vinculadas, mas não são iguais. Vamos colocar dessa forma: você, branco e pobre, pode sofrer discriminação por ser pobre; o seu vizinho preto e também pobre pode sofrer discriminação porque é preto E porque é pobre. Se vocês fossem vizinhos num bairro de elite, as chances de você ser confundido com o seu funcionário – motorista, faxineira – seria quase nula; a do seu vizinho, só porque ele nasceu com mais melanina do que você, ah, como seria maior.

A gente vê que existe racismo, que existe, sim, porque celebrar um dia da consciência negra, quando pensa que todo negro que conseguiu uma ascensão social é celebrado (Morgan Freeman, Joaquim Barbosa). Porque lá no fundo a gente sabe, mas quer fingir não saber, na hora de dizer que todos somos humanos e devemos ser tratados iguais, que o mundo nos fez desiguais – e a cabe a qualquer um de nós reconhecer essa desigualdade pra desconstrui-la. A gente celebra o negro que “subiu na vida” porque sabe que a sociedade já garante esse direito ao branco, mas exige do negro heroísmo pra consegui-lo.

E deixa eu contar um negócio: guardar isso lá no baú das coisas que preferimos não saber não vai fazer a ordem mudar, a desigualdade desaparecer.

Não existe a menor lógica em dizer que somos todos iguais, muda só a quantidade de melanina na pele, quando se é branco e tem uma pele com melanina de menos pra receber aí o racismo. A consciência negra, a questão da cota pra negros, isso não é sobre a gente que é branco, isso não é sobre as nossas dificuldades enquanto brancos nesse mundo politicamente correto. Isso é sobre preconceito e quem sabe mais do preconceito racial não sou eu ou você que é tão branco quanto eu – consequentemente, a gente que não pode dizer quem é ou não é igual, porque pra gente é fácil e simples.

É verdade que somos mesmo todos humanos e quando morrermos vamos todos virar a mesma coisa, e é verdade que dessa perspectiva somos todos iguais. Mas enquanto seres sociais, somos diferentes, e essa diferença tem que ser celebrada, tem que ser pensada, tem que ser repensada e tem que ser vista e entendida como diferença que agrega, não que segrega.

Enquanto segregar, pra mim parece muito óbvio que é necessário um dia pra reafirmá-la.

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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