(Mais um pouco) sobre a gordofobia

Esses dias li aquela declaração da Jennifer Lawrence sobre dever ser “proibido” chamar as pessoas de gorda. Porque isso é ofensivo e provavelmente ninguém gosta de ser chamada de gorda.

Independente das intenções da atriz, de quem é a Jennifer Lawrence na fila do pão ou do que ela “quis dizer” com isso, o fato é que o que ela disse exatamente é pra ninguém mais usar o termo “gorda” e pronto. Quando li essa declaração, eu fiquei meio chateada. Até entendi o que ela quis dizer, não sou burra, mas vou me ater ao que ela disse. Ela disse pra ninguém mais ser chamado de gorda. Mas eu e tantas outras moças que somos, de fato, gordas, então devemos ser chamadas de… quê?

Quer dizer, vai ter gente dizendo que não precisa chamar de gorda porque isso ofende.

Vai ter gente dizendo que dá pra chamar de “cheinha”, de “gordinha”. Mas a verdade é que tem gente (como eu) que é gorda e pronto.

Pensei por uns dias que só eu, e não era possível isso, tinha ficado incomodada com essa fala. Aí ontem pelo twitter encontrei esse texto, que, por sua vez, redirecionou a esse e, puxa, meu incômodo não era mais solitário. Não vou atacar a Jennifer Lawrence pessoalmente. Acho ela bastante “não cheira nem fede”. É uma boa atriz, é bonitinha, gosta de dizer que é gente como a gente mas não me convence e acabou aqui toda e qualquer referência específica a ela nesse post. Não quero atacar J. Lawrence porque ela não é uma exceção, como às vezes parece que é.

E aí calhou de tudo isso vir dias depois de eu ter assistido à série My Mad Fat Diary e ter ficado muito positivamente impressionada porque, pela primeira vez, dei de cara com uma personagem gorda que fugia dos estereótipos-padrão de gorda na mídia. Quem já viu a série (ou conhece o livro, que eu não conheço) sabe que a Rae é uma adolescente de 16 anos, gorda, com problemas com comida, mas cuja vida nem de longe gira em torno de compulsões alimentares e pra quem essas compulsões nunca viram gracejo porque, veja bem, elas de fato não têm a menor graça. E pra quem, também, todos os problemas adolescentes não são apenas e tão-somente “sou gorda”, mas problemas de qualquer ser humano de 16 anos somados àqueles por quais os seres humanos com sobrepeso também passam.

Ou seja: a série traz uma protagonista que é uma adolescente, mulher, cheia de neuras e problemas, muitos da idade, e que por acaso é gorda. Exatamente como a vida real de basicamente toda menina gorda por aí.

Digo porque até onde eu sei, até onde acompanho minha vida, até onde percebo a vida das minhas amigas gordas, por exemplo, somos pessoas antes de sermos gordas. E é sobre isso que tenho pensado:  sobre como a pessoa gorda na verdade é só gorda antes de ser pessoa, tanto na ficção como na vida real.

Quantas vezes começamos frases com “é gorda, mas…”?

Vou tentar ser prática (já que coesa tá difícil):

Várias pessoas me falam, quando toco no assunto da gordofobia, que “gente magra também sofre preconceito”. Gente, eu juro que eu entendo o ponto de quem fala isso. Já vi coleguinhas de escola sendo apelidadas de Olívia Palito e já vi muita moça reclamando que a calça 34 de determinada loja é muito grande pra ela e, por isso, tem que comprar roupa na seção infantil. O que todo mundo que diz isso precisa entender é que a hostilidade contra o gordo vai além de apelidos desagradáveis e não encontrar roupas adequadas (de fato, a gente vive num mundo tão surreal que é difícil um tipo de corpo pro qual as roupas fiquem realmente boas).

Exemplo número um, de situação atípica da vida real: há uns dias, fui ao Hopi Hari com o namorado e dois amigos, nós quatro gordos. Eu era a menor, porque sou baixinha, então proporcionalmente minhas medidas também eram ligeiramente menores. Ainda assim, todos os brinquedos, absolutamente todos, eram desconfortáveis para os nossos corpos. Vimos, inclusive, um cara precisar sair de um dos brinquedos, pouco antes da nossa vez, porque o cinto não fechava nele devido ao sobrepeso. Ok, existe o argumento de que é pra otimizar o espaço, tudo isso. Ainda assim, também existe uma limitação implícita: você, que é gordo, se quiser brincar em parques de diversões, vai precisar passar por situações vexaminosas, tudo bem? Claro que não tá tudo bem.

Exemplo número dois, situação análoga à anterior, mas muito mais “real”: ônibus urbano. Às vezes pego ônibus com a minha mãe, às vezes sozinha, mas sempre é um martírio. A catraca é o primeiro deles, dividir assento, o segundo. Assento com apoio pra braço, nem pensar. Se a pessoa que senta ao lado também é gorda, simplesmente não cabemos juntos no banco. É um constrangimento e um desconforto que, por mais que vida de magro também seja difícil, só gordos entendem. Semelhante a isso é entrar em alguns banheiros públicos ou pedir passagem em cinemas, teatros, etc. Poucos ambientes são projetados pra que a pessoa gorda se sinta confortável e não sinta que tá ocupando espaço demais ali, de forma que incomode os demais presentes.

Aliás, ainda sobre os ônibus: notei que alguns veículos já incluíram obesos na lista de prioridades pra assentos preferenciais. Estive na cidade de São Paulo em 2009 e isso já existia, mas aqui na minha terra ainda é um pouco novidade, não existe em todos os ônibus. Notem: ocupamos tanto espaço que é bom que tenha um assento especial pra gente. Pra não incomodar as pessoas, pra não bloquear o “tráfego” nos corredores, porque gordo só atrapalha. Vocês, que nunca foram gordos, podem achar que é implicância, que é coitadismo. Mas a verdade é que: não tem espaço pra gente no mundo. Literalmente, inclusive.

Exemplo número três: vamos falar sobre Melissa McCarthy. Acho a Melissa McCarthy maravilhosa, de verdade. Eu queria ser linda como ela, ou só um pouquinho do que ela é. Mas já ouvi um milhão de vezes que ela “é linda, mas / pena que é gorda”. Esse comentário não é privilégio da Melissa McCarthy, e eu sei que muita menina magra também escuta isso (“é linda, mas tá muito magrinha”). Mas nunca uma gorda escutou que é elegante o suficiente pra tentar ser modelo, por exemplo, no contexto “você é tão bonita; magrinha e elegante assim, deveria ser modelo”. Quando a moça é bonita e gorda, ser gorda é sempre uma adversidade, um porém, um empecilho pra beleza dela acontecer. Quando se é magra, ok, tem gente que vê empecilhos, mas de maneira geral é elegância.

Atrizes muito magras só chamam a atenção na mídia quando perdem peso bruscamente, como foi o caso da Angelina Jolie e de uma das gêmeas Olsen. Quando já se é muito magra, muitas vezes nem notam esse detalhe. Vejam Rose Leslie: nunca vi ninguém dizendo que ela é “linda, mas muito magra”. Nem deveriam, aliás, porque ninguém tá pedindo pra opinaram sobre o corpo dela.

Quando se é gorda, é a primeira coisa que notam. E muitas vezes só se notam que existe ali um corpo gordo. Uma pessoa comentou um gif em que aparecia a Melissa McCarthy esses dias falando: “olha que linda a Adele, ali”. Exceto por ambas serem gordas, não existe nenhuma semelhança entre a Melissa e a Adele. Mas, quando foi corrigida, a pessoa disse: “grande coisa, pra mim ainda é a Adele”. Ou seja: pessoas gordas, sobretudo, são todas iguais. Porque são todas gordas. E não é bem assim (eu bem queria que fosse, aliás, porque aí eu seria como a Adele, como a Melissa McCarthy, oras). Somos tão plurais quanto qualquer ser humano.

Acho que quando se fala em gordofobia e as “magras demais” tomam as dores, dizendo que também sofreram bullying e tudo, falta uma compreensão do quadro como um todo. Eu não deslegitimo o sofrimento individual de nenhuma mulher, magra ou gorda, mas a questão aqui vai além da individualidade: nós, gordos, simplesmente não temos permissão pra existir. Claro que deve ter sido doloroso pra qualquer menina ouvir piadinha e referência às pernas muito finas, e duvido que qualquer moça feminista que lute contra a gordofobia entenda como “frescura” esse tipo de sofrimento. Violência, física ou verbal, contra o corpo da mulher é um assunto sério, sim. Só que, veja bem, muitas meninas ficam doentes tentando ser magras, porque o mundo as aceita. Ninguém nunca morreu tentando ser gorda demais. Então, por mais que individualmente a gente compartilhe histórias de constrangimentos por causa dos nossos corpos, não é a mesma coisa.

A nós, que somos gordas (eu repito), não é dada a permissão de existir. O exemplo mais banal das roupas: quando se é magra e até o 34 fica grande, ainda existe a opção de comprar o 34 e ajustar. Quando se é gorda e até o maior número da loja fica pequeno, qual é a opção? Nós não temos espaço no mundo, porque somos consideradas espaçosas demais. Entalamos em catracas, em assentos, em bancos de lanchonetes, nas cadeiras das lojas da Tim e precisamos manobrar para entrar em cabines de banheiros públicos porque quem os projeta está passando um recado: vocês precisam diminuir pra caber na nossa realidade. Não queremos seus corpos gordos entre nós.

E não interessa se é uma questão de “otimizar espaço”. Enquanto a gente, que é gordo, existe, o espaço deveria nos acomodar também. Afinal, a gente compartilha dum mundo e, independente de ser uma escolha ou não o nosso tamanho (realmente não acho que uma pessoa gorda deva se justificar sobre ser assim ou assado porque gosta de comer ou porque é doente), esse mundo deveria estar apto pra nos receber como somos.

O pior é que muita gente insiste na ideia de que nós é que estamos erradas, nós é que devemos emagrecer, nós é que devemos mudar. Porque a gordura é errada, é nojenta, é absurda e de forma alguma que pode ser a identidade de um indivíduo.

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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3 respostas para (Mais um pouco) sobre a gordofobia

  1. Renata Mol disse:

    Que texto maravilhoso, Ana! Muito obrigada por ter escrito! Me senti completamente representada por tudo que você escreveu. ❤

    Eu AMO My Mad Fat Diary, principalmente por mostrar uma menina gorda como um ser humano inteiro e complexo. A única outra vez que tinha visto isso foi no Gilmore Girls, com a Melissa McCarthy. Mas MMFD é diferente, é uma protagonista e tem todos esses detalhes, a realidade, a veracidade com quem ela é representada. Minha série preferida, sem a menor dúvida.

    Beijos!

  2. Pingback: Jennifer Lawrence faz com que você sinta-se envergonhada por seu corpo mais do que você imagina | Blogueiras Feministas

  3. Pingback: O machismo, a gordofobia e uns etecéteras | Eu andei pensando

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