O machismo, a gordofobia e uns etecéteras

Quando criei esse blog, juro que a intenção não era só divagar sobre a existência dx gordx, mas aconteceu que minhas reflexões de internet sempre acabam descambando pra esse ponto, então vamos pra mais mais do mesmo, dividido em duas partes:

Eu tinha escrito uma introdução enorme, mas vou resumir: a ideia geral do post é sobre a necessidade de se discutir, sim, a gordofobia, e não confundir isso com uma pauta ESSENCIAL e EXCLUSIVAMENTE do feminismo, ainda que os dois pontos se interseccionem (e muito). É também pintar um pouco a necessidade de se falar em autoestima da mulher gorda além da gordofobia (essa sim uma discussão só do feminismo), mas um pouco do “porque uma coisa não elimina nem tira a necessidade de se falar da outra”. Eu tinha contextualizado a discussão, mas o post demorou eras e ficou last week. Deixa pra lá. A ideia é atemporal (espero que por enquanto).

I. A Gordofobia

A gente ainda tem necessidade de se falar em gordofobia, sim. Por mais que se insista que a mulher gorda é mais oprimida do que o homem gordo (e a insistência é porque é, oras), a gordofobia existe pra todo mundo. Já comentei no twitter que isso é algo como o racismo: mulheres negras e homens negros são afetados por ele. De maneiras diferentes, mas são.

Homens gordos podem até ter um espaço social “abstrato” maior que o da mulher gorda, e vou chegar nisso depois. Mas a verdade é que homens gordos também passam, literalmente, apertos. Homens gordos, como mulheres gordas, também não cabem no mundo. Talvez homens gordos ricos possam se adaptar melhor a isso, mas mesmo assim: eles se adaptam, adaptam o mundo, mas ainda assim não estão ali porque tudo serve pra eles. Pessoas gordas, de um modo geral, entalam em catracas de ônibus. Pessoas gordas, de um modo geral, se sentam nos assentos minúsculos ou ficam em pé nos corredores dos mesmos ônibus, recebem aqueles olhares de reprovação, de “esse sujeito enorme tá ocupando ainda mais espaço desse lugar que já é apertado”. Sabe essas cadeiras que já vêm com o apoio pra livros e cadernos acoplado? Então, pessoas gordas, homens e mulheres, não cabem nelas. Não importa se é homem ou mulher, o gordo talvez precise de dois assentos no avião ou de um extensor do cinto. Qualquer pessoa gorda passa pelo constrangimento de olhar a cadeira de plástico e pensar “putz, isso não me aguenta”. Qualquer pessoa gorda passa pelo constrangimento de se espremer em uma cadeira com apoio para os braços e levantar com os quadris marcados porque elas apertavam.

Eu achava, aliás, que só mulheres gordas sofriam o desagrado de ter lojas específicas pra comprar roupas, porque a maior parte delas só confecciona pra magras. Mas homens gordos também passam por isso – homens jovens e gordos não têm o privilégio de vestir o que quiserem de lojas jovens, porque essas lojas também não têm numeração pra eles.

Como escrevi em outro post, pessoas gordas não cabem no mundo projetado pra gente magra. E isso não é uma questão exclusiva do feminismo. O recado é pra todos nós: quer viver confortável aqui? Perca peso. Emagreça. O erro é você. Daí a necessidade do termo “gordofobia”, de se discutir gordofobia, de desmistificar e, principalmente, deslegitimar o preconceito contra o gordo, que, soando repetitiva, é aquele um travestido de saúde e preocupação.

Mas junto disso, é claro, vem a outra parte.

II. “Orgulho Gorda”

A opressão que a mulher gorda sofre, é claro, vai além de tudo isso. Ela entra no aspecto do controle do corpo, da objetificação, da censura ao prazer feminino, da falta de representatividade na mídia, N fatores. Não é só uma questão de espaço físico e de questionamento do estilo de vida travestido de preocupação com saúde.

É mesmo sobre dizer o que você pode ou não pode ser.

É verdade que o ideal masculino costuma ser o de homem com corpo “saradinho”, ou definido. Mas eventualmente a gente tem personagens masculinos bem sucedidos representados por homens gordos, velhos e jovens, que não têm como mote o único fato de serem gordos. De fato, a única personagem masculina que eu lembro de ter esse conflito era o Hurley, vivido pelo Jorge Garcia em Lost (e era um conflito muito bem construído, não aquela porcaria rasa de “eu sou uma gorda infeliz e ninguém me ama”). E tem o Mike, em Mike & Molly, mas ali é quase uma caricatura, então não sei se conta. Atrizes gordas, por outro lado, em qualquer faixa etária, temos tão poucas.

E quase sempre interpretam não mulheres, mas GORDAS.

Então, veja bem, se o espaço físico, literalmente, nos é negado da mesma maneira, nossa existência social “repercute” de jeitos muito diferentes. A gente pensa e nem existe roupa de banho masculina pensada pra esconder a barriga, por exemplo. Não que nenhum homem gordo tenha vergonha do próprio corpo – não é isso. Essa questão é muito individual pra que se bata um martelo sobre ela. Mas mulheres – gordas, magras, negras, brancas – recebem muito, muito, muito mais censura do que homens. E mulheres gordas mais do que as magras (e gordas e negras mais do que as gordas e brancas e assim por diante).

Talvez porque nosso corpo, no fim das contas, mostre que entre se dar o prazer de comer, sim, e o de se punir, a gente ficou com a primeira opção. Isso é um negócio que eu meio que sempre tive em mente – e acho que muita mulher, gorda e magra, que pensa sobre o feminismo, também – e é completamente intrínseco à opressão do patriarcado, verdade. A gorda é só uma outra maneira de se representar a mulher pecadora. Só que desse pecado ninguém quer, porque de alguma maneira muito abstrata ele tá associado à insubmissão (oras, seja por escolha pelo prazer ou por problemas psicológicos, a ideia de caber numa calça menor pareceu menos tentadora do que pedaços de bolo, e a ideia que se faz da mulher ideal é a que opta – ou se controla o suficiente – pelo jeans menor). Em outras palavras: a gorda e a vadia estão ali, lado a lado. Só que ninguém quer, de fato, fazer essa associação.

Então, aqui entram todas as necessidades de body positve, de se afirmar enquanto mulher gorda, de botar um biquíni ou um top cropped e esfregar na cara do universo que vai ter barriga gorda de fora, sim, doa a quem doer. Ou, se não é pra tanto, botar regata, botar shortinho. Vai ter braço gordo, vai ter celulite, vai ter coxa raspando uma na outra. Vai ter cintura cheia de dobra sem cinta modeladora em vestido justo. E vai ter que engolir a gorda tendo autoestima, que em nenhuma pedra tá gravado que isso é privilégio magro.

Só que esse pensamento, veja bem, também pode ser complicado. Perigoso. E aí vem uma terceira parte não-premeditada:

3. O feminismo e a gordofobia

Falando desse jeito, dá a impressão que a opressão existe e vem só da parte mais conservadora da sociedade. Daquela galera que ainda não entende bem a necessidade de ativismos dum modo geral porque, independente de ocupar uma posição privilegiada ou não, acha que aquele mundo desigual já ficou no passado.

Só que não é bem assim. Gordofobia existe dentro de coletivos e vem de ativistas por quaisquer direitos. A gordofobia ainda é um preconceito extremamente legítimo e muita gente percebe muito pouco ou quase nada que tá lá sendo gordofóbicx.

Eu não gosto de apontar dedos pras pessoas e dizer que é ou não preconceituosx, seja qual for o preconceito. Acho que se a gente tá com boa vontade pra aprender, a gente tá vulnerável a pisar na bola, escorregar em muitos tomates e desconstruir as ideias que temos, e por isso não gosto de ser taxativa ao dizer “gordofóbicx de merda” pra ninguém, venha de onde vier (mas também tem limites, né). Então não vou discutir o fato de alguém ter ou não esse preconceito. A gente é criado pra ter e o importante é estar abertx à desconstrução.

Dito isso, volto ao ponto:

Em coletivos feministas, às vezes a gente vê as moças se defendendo de acusação de Homenzinho de Merda (“feminista é tudo gorda mal comida risos risos”) bradando aos quatro ventos que não é gorda, coisa nenhuma. Que é bonita. Que conhece muitas feministas lindas e “bem comidas”. Talvez nem elas percebam, mas olha a sutileza da coisa: cê que é gorda não serve pra ser bonita. Dá pra ir além: cê que é gorda tá ferrando a imagem da feminista, a gente aqui tem trabalho com esses caras associando nossa imagem com “gorda, feia e mal comida”.

Como eu disse: sei que não é ~de propósito~ pra desmerecer a gorda. Mas isso não muda o fato de que: acontece. E é chato. É opressor.

Vamos de novo: às vezes a gente vê tirinha feminista, vê imagem feminista, vê cartoon feminista, vê o diabo feminista. E geralmente a representação da mulher é de moça magra. Salvo naquelas exceções que a imagem num geral dialoga não só com o feminismo, mas com outras questões. A moça é magra, é branca, nunca é cadeirante ou usa muletas ou é amputada. É quase que uma ideia de que a mulher “comum” é aquela lá e as outras, vejam bem, não servem pra ser mulheres comuns exceto se lutando por suas próprias causas (a gordofobia, o racismo, o capacitismo, a transfobia etc.).

Em síntese: sim, todas somos oprimidas por um mesmo patriarcado que nos diz como devemos ser, como devemos agir, como nossos corpos precisam ser pra serem certos ou bonitos. Mas poucas de nós podemos falar essencialmente como “mulheres”, sem qualquer outro pormenor, na maioria dos nichos. E é por isso, e só por isso, que é necessário que trabalhe a autoestima da mulher gorda enquanto MULHER E GORDA, mas que não se pare de falar em gordofobia.

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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