Coisinhas pontuais sobre a gordofobia

É claro que como frequentadora do nicho feminista anti-gordofobia da internet eu dei de cara com aquele texto maravilhoso do formador de opinião feministo e não gordofóbico, mas…

Não vou publicar o texto, só queria pontuar coisas que me deixaram meio passada:

1) “Não é normal ser gordo, a menos que seja algo hormonal”.

Eu tenho aquele problema de gente que fez Letras e começou a ler o dito pelo não dito em tudo. Ainda que em absolutamente lugar nenhum do texto dele esteja escrito isso, a ideologia, a cartilha que rege essa fala é aquela absoluta que toda mulher minimamente familiarizada com feminismo conhece: controle do corpo. Você não pode ser gorda se tem controle das suas escolhas e acabou ficando assim.

O que o senso comum diz sobre a gordura? Que é gente que come muito, indiscriminadamente. Não passa vontade. Ainda que pessoas gordas saibam que não é a verdade, que tem muita gente gorda que sofre (e muito) na relação com a comida, que tem transtornos alimentares que vão desde a compulsão à bulimia (não raro desencadeada por causa de tortas de chorume despejadas na cabeça da pessoa gorda, como esse texto desse moço, mas saúde mental é só um detalhe na vida do indivíduo, especialmente do gordo), que tem pessoas que comem por frustração, raiva ou tristeza e que nem todo gordo é gordo porque gosta de comer, o grosso do universo, ainda mais gente magra que quer ter um conceito raso sobre o que é ser gordo, acredita que é tudo sobre se esbaldar em comida gostosa e não passar vontade.

E aí, minha gente, a gente chega no pecado capital principalmente do feminino: não pode não passar vontade. Mulher não foi feita pra isso. Foi feita pra ser submissa e comportada. A mulher gorda e, pior, a gorda que celebra o próprio corpo, tá dizendo: comi o que quis, sim; saciei minhas vontades, sim; e NÃO TENHO ARREPENDIMENTO NENHUM. Essa mulher tá, na lista de mulheres horríveis, do ladinho daquela que grita pro mundo que gosta de dar e ninguém tem nada a ver com isso – a diferença substancial entre elas é que pra muito esquerdomacho feministo “a mulher que gosta de dar” é conveniente, mas a gorda com autoestima… pô, cara, ninguém é obrigado a ver gorda de biquíni, né?

E dá pra seguir a analogia: a “mulher que gosta de dar”, mas faz isso na surdina, aí tudo bem. É o tal do “dama na sociedade e puta na cama”. Essa pode. Mulher tem que ser assim mesmo, se comportar como princesinha na frente dos outros e virar furacão no quarto. É tipo a pessoa que come e não engorda. Se faz, mas ninguém percebe, não tem problema nenhum!

2) E já que mencionei isso acima, falam muito sobre a saúde quando vão cagar regra na vida do gordo, mas nunca pensam na saúde mental da pessoa gorda. E nunca pensam (já que todo mundo é tão maravilhoso e se preocupa tanto com a saúde, né?) que saúde mental reflete, e muito, no físico.

Não é raro que pessoas gordas, como já mencionei, tenham transtornos alimentares, tipo bulimia. Imagina, gordo com bulimia! Tem. E tem porque de tanto ouvir essas preocupações com saúde aí desenvolveu um transtorno, afinal, não pode comer, porque comer engorda e ser gordo, nossa, é a pior coisa do mundo. Aliás, não só pensando em bulimia, mas se a gente pensa de perto, a qualidade de vida de muitas mulheres gordas, graças à pressão social dos paladinos da saúde alheia, é miserável por causa de tantas dietas loucas que fazem perder peso logo (com reganho absurdo logo também).

Eu mesma: sou gorda desde sempre e não conheço uma vida sem dieta da sopa, dieta do suco, dieta da lua, dieta da proteína, dieta da USP. Com 15 anos de idade eu já tinha passado mal por causa dessas dietas mais vezes que consigo contar nos dedos. Lembro de episódios da adolescência de comentar com as amigas: “vou esperar entrar em férias pra fazer a dieta X, porque sei que vai me dar tontura e dor de cabeça e não vou aguentar vir pra aula”. Supondo que eu fosse uma adolescente HOJE e lesse esse texto “não-gordofóbico e só preocupado com a minha saúde” desse rapaz formador de opinião, duvido muito pouco que eu (e minhas amigas) procuraria outra dieta louca pra emagrecer muito rápido e, enfim, ser saudável.

Trocando em miúdos: falar pra pessoa gorda que ela precisa emagrecer por causa da saúde é BOSTA, em caixa alta mesmo. Não importa o quanto alguém tenha colesterol alto, gordura no fígado, hipertensão, problema nas articulações ou o diabo. Quem tem o direito de falar qualquer A é quem realmente se importa, e só. Eu mesma: aceito comentários de pouquíssimas pessoas sobre meu peso/minha saúde.

3) Ainda que num surto coletivo todas as pessoas gordas do mundo decidissem emagrecer, por qualquer razão que fosse, esse processo, se feito com consciência e de maneira saudável, é EXTREMAMENTE LENTO.

O que isso quer dizer?

Que pessoas gordas continuariam sendo gordas por muito tempo. E aqui vem uma novidade que pra muita gente deve ser meio chocante: a vida não entra em hiato esperando você se tornar quem você “deveria” (cof cof) ser. Em outras palavras: a vida de nenhuma pessoa gorda vai congelar e esperar ela ser uma pessoa magra pra continuar acontecendo. Então por que não celebrar o corpo? Por que não dizer “tá tudo bem, você pode ser linda e se amar assim”? Por que não nos dar a chance de escolher o que queremos vestir e, puxa vida, de sermos tratadas que nem seres humanos?

Mesmo nesse contexto de surto coletivo em que ser gorda seria transitório, qualquer pessoa merece ser tratada com dignidade e respeito nesse período de transição. Ninguém deveria viver se escondendo esperando um amanhã em que pode ser que seja outra pessoa pra existir, se fazer enxergar, se sentir representada e querida, sabe? E pedir por representatividade, pedir por pessoas gordas na mídia, sei lá, agindo com pessoas, dançando, namorando, estudando, perdendo hora pro trabalho e não sendo caricaturas de gente estúpida, é só isso: pedir pra entenderem que a gente também é gente.

Se o problema é que a gente é “doente”, gente que tem AIDS é doente e não é menos gente. Gente que tem câncer também. Dá pra botar uma lista enorme de doença aqui pra dizer: gente que tem alguma doença, veja bem, não é menos ser humano (aqui sempre tem alguém pra falar que só é gordo quem quer, então sugiro que volte ao tópico 1).

4) Por fim: sempre que aparece alguma modelo, atriz, cantora gorda por aí falam em “apologia à obesidade”.

Aqui dá pra pontuar duas coisas.

A primeira é que a gente tá vivendo, como gostam de dizer os paladinos da saúde do gordo, uma epidemia de obesidade, mas é muito recente a aparição na mídia de pessoas REALMENTE gordas, e não gorda-42. Então não sei se dá pra dizer que as pessoas andam engordando porque viram muito Mike & Molly ou pregaram uma foto da Tess Holliday na porta do armário, né, já que há pouquíssimos anos a gente abria revista e via que gorda era a Kate Winslet.

A segunda é que, veja bem, eu tenho amigas magras que acham a Tess uma mulher linda. Mas duvido, duvido muito, que alguma delas tem qualquer intenção de ter o corpo da Tess um dia. Até chutaria que muitas respiram aliviadas por não ter, naquela onda de que a Tess é linda, mas “pra mim não funcionaria”. E eu não julgo. A real é que é difícil mesmo ser gorda, ainda mais gorda do tamanho da Tess, com a segurança e autoestima que ela passa, e eu não pediria pra mulher nenhuma no mundo desejar isso pra si mesma sabendo o quanto a galera é cruel com gente gorda.

Mas a real é essa: mulher magra nenhuma que ache uma mulher gorda bonita, poderosa, quer ser igual a ela.

E o inverso?

Eu já perdi a conta de quantas vezes vi pessoas gordas com foto de gente magra de inspiração. Eu passei minha adolescência inteira mirando corpos em revistas e pensando “por que o meu não é assim?” Até hoje às vezes eu olho uma ou outra moça com cinturinha fina e quadril estreito na TV e lamento por não ter essa genética, ué. Minha vida seria tão mais fácil.

Então não, não tem nenhum tipo de apologia à obesidade em mulher gorda se curtindo aparecendo na mídia. O que tem é uma injeção de autoestima pra gente que nem eu, que ainda não é empoderada o bastante pra se curtir, mas vai enxergando que pode. Independente do corpo que eu queira ter um dia, se quero outro, como já disse ali em cima, o que me vale é hoje, e hoje o que eu tenho é esse, então hoje eu quero gostar desse.

Se mostrar gente gorda existindo parece nocivo porque “faz apologia” a qualquer coisa que você entenda que é ruim, tenta pensar em quanta gente evita sair de casa e tá só olhando o tempo passar por causa de uma mentalidade tão pequena, doente e burra igual a essa, sabe?

Pronto, era isso.

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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