Representatividade

Esses dias, sapeando pela internet, li de uma blogueira um comentário sobre uma matéria X de uma revista Y todo elogioso e comentando o quanto a revista progrediu e passou a abordar temas mais elaborados pra mulheres. Uma das coisas que ela pontuou é que muita gente reclamou de não ter nenhuma mulher gorda ilustrando a matéria, mas isso não é exatamente um problema porque o tema era outro que não a diversidade.

Isso me fez pensar um pouco sobre a tal da representatividade.

Muita gente me diz que eu devo estar feliz porque agora existem mais gordas ganhando destaque por aí (apesar de ainda serem poucas, sim), mas eu só consigo pensar que não. Sim, temos um pouco mais de gordas ganhando destaque por aí hoje (e quase todas brancas), o problema é que elas continuam sendo gordas antes de serem mulheres.

Essa fala de “não é uma matéria sobre diversidade” foi o gatilho pra eu pensar a respeito disso, no fim das contas.

Acho que cada vez mais páginas feministas, blogueiras e até um ou outro programa de televisão chama a atenção pra aceitação do corpo, pra diversidade, pra importância da representatividade, e nessas horas lembram de nós, as mulheres gordas que raramente têm espaço na mídia. Mas se a gente olha de perto, pra falar sobre QUAISQUER OUTROS temas que interessam a TODAS as mulheres, é quase absoluto o número de magras “representantes” do conjunto de mulheres.

Eu estaria contente com a representatividade se as pessoas passassem a entender a gorda como um ser humano. Ao invés de lembrar de mulheres gordas só na hora de falar sobre aceitação, lembrasse que essa aceitação depende MUITO, mas muito MESMO,  da forma como mulheres aparecem na mídia.

Quando a gente pensa em ficção, quem são as personagens gordas? Ou a bonachona caricata que só come (e é sempre o “alívio cômico” quando não é já apresentada em séries ou filmes de comédia), a gorda desesperada por homem, a melhor amiga engraçada da protagonista, a criança gorda que sofre bullying e é perturbada, a adulta gorda com problemas de autoestima. São pessoas pra quem a vida gira em torno do peso, veja só. São estereótipos do que a sociedade imagina que é a pessoa gorda: a piadista, a engraçada ou a complexada. Acho que as únicas séries com mulheres gordas não-unidimensionais que eu já vi são Orange is the New Black e My Mad Fat Diary, veja bem.

E como é que deveria, ser, né?

Do jeito que é na vida real: deviam enfiar mais figurantes gordos em todos os lugares, só pra começar. Mas não a gorda velha e reclamona da fila da lotérica, só pessoas gordas existindo, mesmo, e fazendo coisas que todas as pessoas fazem: correndo no parque, sentadas na praça, passando pela rua. É uma coisa tão pequena e insignificante, né? Mas já é um passinho que, pra mim, mostra que gordos EXISTEM.

E deviam botar gente gorda como protagonista, também. E em papel secundário. Mas não sendo gorda, sendo gente. Fazendo tudo o que uma personagem magra faria. Com as mesmas dúvidas, os mesmos questionamentos, os mesmos problemas, a mesma rotina que a de um personagem que pode ser interpretado por um ator magro; e não vivendo em função de comida e/ou de se odiar por causa do peso. É verdade que o peso é uma coisa presente da vida de pessoas gordas. A gente enfrenta gordofobia, em maior ou menor escala, todos os dias. A gente sofre de não caber em uma cadeira ou de não poder comprar a roupa que quer porque não tem do nosso tamanho, a gente passa desconforto na hora de comer em público com medo de julgamento, sim, e vira e mexe a gente pira com insegurança sobre o próprio corpo. Mas a nossa vida não é só isso.

Eu estudo, cuido de dois gatos, tenho um marido, dou aulas, cuido da casa, tenho uma família passando por um período de adaptação com mudanças de rotina. Tenho problemas como qualquer pessoa magra que às vezes nem tangenciam a questão do peso, quem dirá passam por ela. Nem que eu quisesse poderia ser gorda nesse sentido caricato e raso 24h/dia, porque na maior parte do tempo sou pessoa. Que pesa mais do que um monte de gente, mas pessoa. E é assim que eu queria ver gordos na mídia, ué. Como pessoas que enfrentam crises que pessoas enfrentam, e não como gordos que só existem pra ser gordos.

Também seria bacana ver gente gorda ilustrando campanha que não tem nada a ver com aceitação. Ver gente gorda em ilustração feminista que fala sobre assédio. Ver gente gorda estrelando campanha de câncer de mama. Ver gente gorda discutindo sobre aborto. Ver gente gorda em quadrinhos que não a transforme no alvo da piada. De novo: ver gente gorda existindo, sendo real, sendo gente.

Em síntese: o que eu espero, quando penso em representatividade, é nada mais, nada menos do que a normalização do corpo gordo. Só isso. Mais nada. Só a ideia tão simples (e tão absurda) de que somos pessoas como qualquer pessoa magra. Não pessoas que existem com um propósito. Só pessoas, mesmo.

E o mais triste é pensar que é uma coisa tão simples e ao mesmo tempo é pedir TANTO…

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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