O mito do “antes e depois”

Esses dias, vi num dos grupos de que faço parte uma dessas fotos de “antes e depois” da Melissa McCarthy. Não tenho nada a ver com a vida da Melissa (nem de qualquer outra pessoa), mas acho extremamente problemático esse tipo de foto. É a maneira mais clara e óbvia de dizer “olha que pessoa gorda ridícula eu era e olha que belezinha me tornei”. Além disso, é o jeito mais desagradável de cuspir num corpo que, por mais que você detestasse, te manteve em pé por meses, anos ou até uma vida inteira. E isso é horrível.

Não é o caso da Melissa, mas quase sempre as fotos de “antes” são descuidadas, espontâneas, em poses que desfavorecem a pessoa em todos os aspectos, não raro com cabelo feio, roupa esculhambada… sei lá. E “depois” é sempre gente linda na balada ou, no mínimo, bem arrumada. A pessoa não percebe, provavelmente, que o que mudou de uma foto pra outra foi muito mais que o peso, mas a maneira como ela olha pra si mesma, como se cuida, como se arruma.

Daí eu achei uma foto minha de “antes” que ilustra isso, mas às avessas:

CWNjIS1WIAA5d2_

À esquerda, em out/nov de 2011, na única foto de corpo inteiro que tenho dessa época; à direita em novembro de 2015 e me sentindo fantástica.

A primeira foto é de outubro ou novembro de 2011. Eu tinha quase 50kg a menos do que tenho hoje e não consigo olhar pra essa foto e dizer “olha como eu era ‘melhor’!”. Apesar do corpo magro, eu era uma pessoa triste. Eu tava passando por um momento horrível na minha vida, com um relacionamento complicado, um emprego que eu odiava, tomando todo dia um monte de moderador de apetite, ansiolíticos e laxantes a perder de vista. Nessa época, eu saí um dia pra ir ao cinema e comer um lanche e joguei fora um Big Tasty depois de dar UMA mordida nele quando vi o valor calórico que ele tinha. Talvez um monte de gente me desse tapinha nas costas pela atitude, mas de certo eu tinha passado aquele dia com uma média de 500 calorias, porque era o que eu comia todo dia.

Eu vivia ansiosa, irritada, não só pelo moderador de apetite mas por tudo o que eu tava vivendo. Eu não conhecia meu corpo, eu não sabia vestir meu corpo, eu não tinha VONTADE de entender meu corpo. Meus dias oscilavam entre querer morrer e querer me enterrar num buraco até me sentir melhor.

E eu tava MAGRA. Eu devia me sentir feliz. Mas tava tudo desandado e não tinha como sentir qualquer coisa diferente de frustração. Foi puxado entender que ser (ou estar) magra não ia, exatamente, revolucionar minha vida, até porque no começo, quando comecei a perder peso, eu tive momentos de me sentir melhor. Só que a vida tomou outro rumo que me forçou a perceber que nunca foi o quanto eu pesei que me fazia infeliz, mas, sei lá, a vida num todo ou a forma como eu lidava com as adversidades. Ou até as adversidades por elas mesmas.

A segunda foto, meu “depois”, é de novembro de 2015. São 50 kg a mais. Não 10 ou 20, 50. Tem gente que pesa menos do que o tanto que eu engordei nesses 4 anos. E eu não vou mentir: no começo, perceber que eu tava engordando de novo foi devastador. Eu ainda era a pessoa que jogou fora um sanduíche inteiro pra não comer as mais de 2.000 calorias dele de uma vez, afinal. Eu ainda tomava laxante como se fosse bala de menta, eu ainda era a pessoa que subia na balança depois de cada refeição pra checar se engordou, no fim das contas. Então é claro que quando o número começou a subir, primeiro devagar e depois descontrolado, eu me senti horrível. A única coisa que eu sentia é que eu era a personificação da derrota.

Engordei os primeiros 20kg entre 2012 e 2013, quando parei com o moderador de apetite. Foram os meses mais difíceis. Os 30 restantes foram nos dois anos seguintes e só vi meu peso estabilizar de novo em julho desse ano.

Mas nesses últimos dois anos, ao invés de entrar em pânico, resolvi me dar uma chance. É claro que não foi FÁCIL. As pessoas dizem (e muito) que se aceitar gorda é só pretexto pra não se mexer e mudar, que é o caminho cômodo e confortável, mas elas não têm a menor ideia do que estão dizendo: a sociedade odeia gordos e odeia com mais força ainda o gordo que cansou de brigar contra si mesmo e resolveu VIVER. A sociedade só gosta do gordo que sofre pra emagrecer, e gosta com ressalvas. Resistir não é cômodo; existir enquanto gordo não é cômodo – e enquanto gorda é ainda mais difícil.

Mas eu me dei essa chance, sim.

E, hoje, olhando pra essa foto, acho que fiz uma coisa boa. Deixar de lado todo o ódio que sempre senti por mim mesma, por não ser a pessoa que “deveria”, por não ter o corpo que “deveria”, foi essencial pra me conectar comigo, descobrir o que me veste bem, o que me faz bem e não ser mais essa pessoa que espera o dia seguinte, o “peso ideal” ou qualquer outra coisa pra me sentir capaz.

Não sou a rainha da desconstrução. Não sou a pessoa com a autoestima mais inabalável do mundo. Ainda tem dias que eu olho pra mim mesma e sinto vontade de chorar e me pergunto porque não posso ser diferente. Mas a real é que hoje eu sei que isso não tem nada a ver com o quanto eu peso e que esses dias eram muito mais frequentes há 4 anos, quando eu era diferente. Hoje eu só aceito que tem dias que vou perder e que posso tentar de novo no dia seguinte.

E aí eu volto no que disse no começo do texto: “antes e depois” não tem nada a ver com peso, tem a ver com a forma com que a gente olha pra gente mesmo. Não deixa de ser triste notar que muitas pessoas ainda precisam perder peso pra se olhar com carinho, mas o intuito aqui é dizer que isso não é real. Não quero dizer pra ninguém “não emagreça!”, só quero dizer que essa batalha ainda não tá perdida e que qualquer pessoa que seja não precisa esperar os números da balança diminuírem pra se sentir bem, em paz, pra ser quem gostaria de ser. É uma coisa que pode ser AGORA, sim, porque a vida não tá esperando pra acontecer, afinal.

Anúncios

Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.