Divaguei: lugar de fala

SENTA QUE LÁ VEM TEXTÃO (dessa vez, muito ÃO)

Não vou entrar no mérito do novo Bafão™ dessa rede social (“ai, não sei de bafão nenhum” – sigo achando que é SORTE SUA), só queria falar sobre LUGAR DE FALA, que foi a origem de todo o mal. Faz tempo que to com esse texto germinando na minha cabeça e, correndo o risco de perder o timing, acho que tá na hora de materializar ele.

Há muito tempo –  considerando a passagem de tempo online -, joguei no twitter umas ideias sobre como essa história de lugar de fala encontra muito respaldo na análise do discurso. Twitter é meu lugar oficial de jogar ao vento ideias que preciso desenvolver porque ninguém lê nem se importa, então serve quase como caderno de anotações. Isso tem martelado há tempos pra mim.

De cara, já digo: eu não acho que lugar de fala é uma bobagem. Mas também já digo: eu não acho que é simples assim, “eu vivo isso, eu falo sobre isso e mais ninguém”.

Vamos lá.

PRIMEIRO: o “lugar de fala” de uma perspectiva mais “teórica”

Já vou de antemão avisar que esse texto não tem um referencial teórico redondinho, porque não é um artigo acadêmico (inclusive existem diversos artigos acadêmicos sobre o tema, a quem interessar possa), mas também não é uma coleção de “achismos”.

Tudo começa ali na formação do sujeito discursivo. Não quero ser chata “academicista”, mas esse sujeito discursivo se constitui basicamente em duas coisinhas: polifonia e dialogismo. Pra quem nunca ouviu falar em nada disso, simplificando muito significa basicamente que nós, enquanto sujeitos do discurso, somos uma soma das várias vozes que cruzaram nossa vida (polifonia) e da interação com outros sujeitos (dialogismo). É um negócio que é bastante simples (e ao mesmo tempo não é; eu mesma passei um semestre inteiro brigando com a AD porque isso não entrava na minha cabeça) e pra quem se interessar mais é só dar um Google no que Bakhtin tem a dizer a respeito.

Além disso, a AD também fala sobre o discurso como materialização da ideologia. Aqui a gente vai mais pra um lado de Foucault e o poder do discurso e tudo, mas as coisas se relacionam bastante. Pra mim, que não sou exatamente uma pesquisadora da área, não existe uma coisa que materialize mais ideologia, com mais força, impacto e poder, do que o discurso. Por isso acho tão besta quando, pra diminuir a luta de uma pessoa, alguém diz que ela “só fica em casa com a bunda no sofá escrevendo sobre o assunto”. É claro que discurso não é só fala (e escrita), e é claro que existem outras formas efetivas de se combater qualquer problema, mas falar sobre isso é EXTREMAMENTE importante, sim. Não existe transformação sem que a gente fale sobre aquilo que deve ser transformado (isso também é um pouco Foucault, se alguém se interessar).

É claro que eu escolhi simplificar muito teorias muito mais complexas, mas insisto: quem se interessar pode procurar pelas contribuições de Bakhtin e Foucault na Análise do Discurso e pode inclusive dar um search em artigos sobre o lugar de fala na perspectiva da AD que tem muita coisa com um embasamento teórico bem sólido a respeito.

E aqui entro nas minhas subjetividades: como essas coisas se relacionam?

Bom, a ideia de lugar de fala e de vivência que muitas militâncias pregam é basicamente isso aí que a AD diz experimentado na prática.

Eu, enquanto mulher e gorda e considerando esse lance de polifonia e dialogismo, sou basicamente formada por todas as vozes que dialogaram comigo ao longo da vida e que caracterizaram o que é, pra sociedade, ser mulher e gorda (e aí entra a ideologia!). Minha construção como sujeito foi totalmente atravessada pelos discursos de outros sujeitos que trouxeram até mim o que é ser “mulher e gorda”.

Só que essa experiência, veja bem, é muito subjetiva (não é à toa que sujeito e subjetividade são palavras da mesma família).

Agora eu vou trocar “sujeito” por “pessoa”, mas façam o favor de entender: cada pessoa nessa vida vai ser formada de experiências diferentes, mesmo que elas dividam o espaço e o tempo quase que integralmente. Mesmo irmãos que façam absolutamente tudo juntos, mesmo que tenham o mesmo gênero, frequentem a mesma escola, brinquem com os mesmos amigos vão ter um contato diferente com o mundo – e é isso que faz a nossa subjetividade.

Mas aí (e sempre tem um mas) a gente pensa nas minorias – e nas ideologias dominantes. Existe nesse mundo racismo, misoginia, LGBTfobia, gordofobia, capacitismo… e pessoas negras, mulheres, da comunidade LGBT, gordas, com necessidades específicas vão passar, ao longo da vida, por situações muito parecidas. Em outras palavras: as vozes que vão formar o discurso dessas pessoas, muitas vezes, serão muito parecidas. Isso porque o discurso do racismo, da misoginia, da gordofobia, etc. se repetem em uma comunidade – com aquela ajudinha da mídia, do senso comum e das tradições.

Então, quando a gente fala em lugar de fala, de maneira bem grosseira a gente pensa sempre nesses discursos que se repetem. Acho que se o negócio fosse só por aí, era totalmente seguro a gente brigar por “lugar de fala” como uma coisa inexorável, mas o que a gente deixa de lado é essa outra questão que é tão importante quanto, a da subjetividade.

Por mais que os discursos que me formaram ao longo da vida enquanto gorda (e aqui to só fazendo um recorte) tenham sido os mesmos que o de qualquer outra gorda que viva em uma comunidade que compartilhe a ideologia dessa em que vivo, a nossa experiência ao confrontar e assimilar esse discurso provavelmente foi diferente. No caso de mulheres gordas, é muito comum a gente encontrar aquelas que corroboram com a violência e a opressão que vivemos, porque elas aprenderam sem qualquer outra resistência que o corpo gordo é um corpo equivocado e nós precisamos nos adaptar ao mundo. Comigo, foi diferente. Cresci com influências que me ensinaram desde muito nova que não tem nada de errado comigo e com o meu corpo, e por isso nunca engoli a conversa de que eu é que preciso mudar pra me encaixar e bato de frente com isso desde que tenho uns 13 ou 14 anos.

Como não quero fazer disso um texto pessoal, volto ali nas mulheres que reproduzem discursos problemáticos acerca do corpo gordo: essas mulheres também têm a mesma vivência que a de uma gorda ativista, mas a enxerga de uma maneira diferente. Essa mulher vai se sentir validada por listinhas de “porque namorar uma gordinha”, vai se autodebochar e vai dizer que não acha errado fazer piadas de gorda. Essa mulher também é uma gorda com vivência, então ela ocupa exatamente esse lugar de fala. E aí? A gente vai dizer que ela é uma estúpida que ainda não encontrou a luz? A gente vai ignorar TUDO o que já atravessou a vida dela até agora (e provavelmente ainda atravessa) porque o discurso dela não tá alinhado com o nosso?

Um exemplo muito nítido dessa situação é o daquele rapaz, negro, que falava abertamente contra o movimento negro nas redes sociais. Se a gente for se basear essencialmente no lugar de fala da forma simplificada que ele se apresenta, o discurso desse rapaz era incontestável por qualquer um que não fosse negro, já que ele era não só negro como periférico também. Quem adorava era a direita racista, que adorava pegar trechos das declarações dele e dizer: “olha, é preto e pobre falando”. E era, mesmo. E muita gente se calou pra muito absurdo que esse moço disse, porque “não é meu lugar de fala, não vou arranjar treta”. É. Mas volto nisso depois.

No lado oposto dessa questão, a de pessoas com vivências de gordofobia, racismo, capacitismo etc. que se posicionam ao lado do opressor (e eu não to fazendo um texto demonizando essas pessoas, inclusive e principalmente porque elas não se beneficiam dessa situação; apenas afirmo que elas existem), existe o lado da pessoa empática. Uma pessoa magra com certeza não vai ter sua subjetivação atravessada por discursos gordofóbicos (ou até vai, mas numa perspectiva de padrão estético, que é o melhor amigo da gordofobia na socialização de mulheres), mas pode conviver com pessoas que passem por isso. A experiência dela não vai ser a mesma, o discurso não vai ser o mesmo; ela provavelmente vai receber esse impacto como releitura, como a visão da pessoa oprimida sobre aquela situação. É justamente aí que a empatia entra: isso pode ser somado à constituição desse sujeito pela capacidade de se colocar no lugar do outro, em menor ou maior esfera. Não, não é a mesma coisa que efetivamente ter aquela vivência. É claro que não é. Passar por uma situação de constrangimento ou violência estrutural é muito diferente de testemunhar isso de fora, ainda que dividindo muito intimamente o momento com a pessoa alvo da violência. Mas empatia existe e pessoas podem assumir um discurso de ativismo mesmo sem fazer parte daquela parcela atingida, isso só pela empatia, mesmo.

Se a gente não acredita que empatia pode ser real, eu realmente nem sei porque a gente pede pra que as pessoas tenham empatia, se a luta já é perdida.

Isso faz inclusive pensar a respeito de que “lugar” é esse. É o lugar enquanto ativista? É o lugar enquanto indivíduo vítima da opressão? É o lugar enquanto ativista vítima da opressão? Delimitar tanto esse “lugar” não apaga todas as pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de confrontar sua formação? Ou ainda: não faz parecer que lugar de fala só é incontestável enquanto atender nossas expectativas?

E ainda existe aquela coisinha básica que é a omissão de quem “não quer tomar lugar de fala”. Não aconteceu uma ou duas, mas várias vezes de amigas me falarem algo do tipo: “eu admiro sua luta, mas não consigo me posicionar num debate sobre gordofobia, mesmo quando as pessoas estão sendo umas escrotas, justamente porque tenho medo de tomar lugar de fala”. A elas, eu digo: se posicionem, por favor. Nem sempre a gente tem a chance de chamar a amiga que tem lugar de fala ou achar textos de pessoas apropriadas pra falar a respeito. Antes uma pessoa de fora se posicionando do que se omitindo. Sério.

Tudo isso é muito complicado por diversos fatores.

Porque militância não é autoajuda.

Porque a gente não elegeu porta-vozes oficiais de ativismo que podem falar por qualquer um.

Por causa das subjetividades.

Na dúvida, eu sou da seguinte opinião: se é pra somar, é bem vindo. Não importa de onde venha a fala.

Quando é que roubo de protagonismo e lugar de fala (me) incomodam? Quando apagam completamente a existência de quem é atingido pela situação. Tipo quando homens se engajam em debates pra ensinar mulheres pelo que elas devem lutar, ou quando uma pessoa magra quer decidir o que é ou não gordofobia (uso a luta das pessoas gordas pra falar a respeito porque é um espaço confortável pra mim). Incomoda quando é oportunismo puro, tipo certos youtubers gravando vídeo feminista e continuar sendo misógino nas entrelinhas. Incomoda quando propõem atividade de empoderamento feminino só com homem coordenando, quando é mesa redonda sobre racismo só com gente branca, quando é palestra sobre saúde da comunidade LGBT só com palestrante hetero. Isso incomoda.

Mas não (me) incomoda quando é pessoa de grande circulação passando adiante um discurso que os grupos sociais já cansaram de repetir. Quando é homem divulgando informação sobre necessidade do aborto, quando é magro repassando que vestir 42 não faz de ninguém uma pessoa gorda.

Com isso eu só quero dizer que: a gente realmente não precisa de ninguém falando nada por nós. Mas euzinha pessoalmente não sei se a gente tá em posição de descartar quem quer somar só porque eles não são como nós. Inclusive porque a gente nem sabe dizer categoricamente quantos de nós são como nós, né.

[esse texto é de opinião pessoal e não fala por qualquer outra pessoa além de mim mesma, só pra esclarecer]

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Sobre Ana

Aquela que ainda não deu certo nem lá nem cá, mas no meio de tudo ainda faz da internet uma Penseira.
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