Sobre esse papo da cantada (ou assédio)

Ontem li esse texto, sobre o assunto do momento que é esse papo de assédio X cantada, e fiquei meio “putz”.

Não sei se digo que entendo a intenção do cara que escreveu. Não sei mesmo. Principalmente porque não sei se entendi. Só que talvez exista lá na cabeça dele a sua motivação pra dizer “ei, nem todos nós que dizemos ‘você é linda’ pra uma moça na rua somos horríveis”. Ele, como muitos homens, sabe que ele é um cara diferente dum estuprador. É, pode ser.

Mas não é sobre isso que eu quero falar.

O que eu pensei, enquanto lia esse texto, é o quanto, a rigor, enquanto se é mulher e se anda na rua, isso não faz a menor diferença. Bem nessas: tanto faz se o cara é um pervertido que chegou encoxando, se o cara chamou de “gostosa” ou de “linda”, se o cara disse obscenidades ou cantou “Garota de Ipanema”. E por quê?

Vamos fazer um exercício de imaginação aqui: pense que você é uma mulher. Talvez não diariamente, mas frequentemente você escuta as mais diversas gracinhas, com as mais diversas abordagens. Num dia é um cara que te chama de linda, na semana seguinte é um maluco que assovia pra ti e, por não gostar de ser ignorado, te puxa pelo braço pra te dizer que você não tem o direito de passar reto por ele, que nem é grande coisa. No outro dia, é uma mão na bunda dentro do ônibus. Passa mais uns dias, é só aquele cara inescrupuloso olhando pras tuas coxas sem nem tentar disfarçar. Você faz o que pode pra desviar deles, mas os olhares, paciência, vão te acompanhar. Você não tem como evitar. Se tá de dia, se a rua é movimentada, se você não tá em “lugar suspeito”, se tem algum policiamento por perto, você ainda tem aquela segurança de ir em frente sabendo que, ufa, pelo menos você só foi constrangida, assim, moralmente. Podia ser pior. O cara podia tentar te estuprar: você não sabe quem ele é, de onde ele veio, pra onde ele vai. Não importa se ele tá bem vestido, se ele é bonito, se ele pareceu gentil.

A única coisa que a maioria da gente, que nasceu ou escolheu ser mulher, aprendeu a sentir com qualquer tipo de abordagem na rua é medo, repulsa, incômodo. Nesse texto que linkei, tem aqui esse trecho:

A cena é hipotética, meninas, mas se imaginem na situação, leiam, fechem os olhos e pensem que são vocês as protagonistas desta história: é uma quarta-feira nublada, talvez chova, você está cansada, trabalhou muito, mas ainda tem que chegar em casa para pensar no que jantar e em como alegrar o maridão remelento que só pensa em ver o futebol na televisão. Você está desatenta, com o pensamento na droga de relatório que tem que entregar para o ogro do seu chefe no dia seguinte. Aí vem a frase, a princípio de lugar algum: “Você é linda”. Você procura o autor, meio sem jeito, para ver se não é algum conhecido querendo fazer uma graça. Mas não, é apenas um sujeito com aptidão para a sinceridade. Ele repete: “Você é linda, eu só queria te dizer isso, desculpa se atrapalhei alguma coisa”. Você, aí, olha para o cara, analisa se ele é branco ou preto, loiro ou moreno, se tem sardas ou manchas na pele, se é muito velho ou um adolescente, se tem cara de ser bom marido, pai ou amante. Nada sobre aparência, no fundo, é muito relevante porque todo mundo sabe bem que raramente uma cantada de rua segue adiante. Mas aquele rapaz, com poucas palavras, teve a capacidade de transformar seu dia. “Você deve estar com pressa, mas faço questão de repetir: você é linda”.

Acho importante, de novo, voltar à realidade pouco hipotética da maioria das mulheres: você não foi o primeiro, nem vai ser o último, a dizer pra moça que ela é linda. E se fosse o sujeito que a puxaria pelo braço pra dizer que ela é linda, mas é esnobe, também não seria o primeiro, nem o último. Sabe o que a assusta, nos assusta, nessa situação: que não sabemos se você é esse cara. Não temos como saber. E, acredite, se estamos vivendo essa quarta-feira chuvosa, nublada e deprimente, não queremos descobrir, nem que sim, nem que não.

Só pra finalizar, vamos ao inverso: diariamente, moças vêem rapazes bonitos por aí. Dificilmente alguma aborda o rapaz só pra dizer isso, porque é coisa de momento, porque depois daquilo cada um vai pra sua casa e ninguém vai continuar uma cantada de rua, porque nenhum deles vai se ver outra vez. Olha, vê que é bonito e segue a vida. E ninguém morreu ou perdeu o amor da vida toda por isso. Sim, rapazes, dá pra viver sem cantada de rua.

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Relato de uma ex-magra ex-gorda

Sempre fui gorda. Daquele tipo de pessoa que nunca poderia dizer “não sou gorda, estou gorda”, porque esse “estar” durou a vida toda. Daquele tipo de pessoa que tem no sobrepeso um tipo de identidade.

E sempre fui relativamente conformada com a gordice, já que era mais semi-gorda do que gorda. Quer dizer: pesei na faixa de 70kg desde que parei de crescer (no metro e cinquenta e sete, oito ou nove). Já era na faixa do sobrepeso, sim, mas meu biotipo ainda me deixava com pulso ossudo e saboneteira bem aparecida.

Só que aí aconteceu: meus 70kg viraram 80 e tantos, lá no segundo ano de faculdade. E já culpei muita gente pelo fiasco de ter ganhado tanto peso, mas hoje só culpo a mim, é. Não interessa os motivos, eu descuidei, relaxei, deixei de olhar pra mim mesma. Foi um processo longo, é claro. Nem sei dizer quando começou (mas chegarei no quando terminou). Só sei que, quando dei por conta do que eu tinha feito a mim mesma, desabei a chorar e esculachei de vez.

E aqui entro com uma ressalva: nem de longe eu sou do time de mulheres que vivem impecáveis. Nunca fui fã de maquiagem, de salto alto, de meia calça, de chapinha no cabelo e de depilação com cera, não, e duvido que um dia serei. Quando eu digo “esculachei de vez”, quero dizer que cheguei no fundo do poço e continuei cavando, naquele ponto de nem tomar banho diariamente porque eu era gorda e desinteressante e isso não faria a menor diferença. Um dia, me vi de relance numa vitrine de loja, de calça de malha, camisa listrada, cabelo sujo e chinelo de dedo, e me senti miserável.

Foi particularmente difícil porque eu saí da escola em 2005. Em 2006, no cursinho, ainda era muito jovem pra ter minha imagem desvinculada de quem eu era na escola. Em 2007, no meu primeiro ano de faculdade, eu vivi meio que uma transição. E em 2008 eu ganhei peso. Foi como se minha transição tivesse pulado da adolescência pra decadência assim, involuntariamente. E por isso foi tão traumático. Era como se ser adulta, na minha vida, fosse… aquilo.

E aí eu decidi que não queria mais aquilo pra minha vida, mas todo mundo que é gordo sabe que não é exatamente fácil emagrecer. É aquele papo todo de mudar a cabeça, que mudar o corpo vem como consequência. Eu não entendia como podia mudar a cabeça se, dentro dela, eu era obviamente horrorosa. Fazer regime quando você tem problema com comida não é, também, a coisa mais fácil do mundo. Sei que eu engordei num momento de crise porque sei que eu sou muito dessas que desconta frustração em comida. Tentar emagrecer e não conseguir era motivo de frustração que eu também descontava em comida: vivia num looping.

Aí eu fui ao médico. Aí ele me receitou do remédio proibido.

E aí eu emagreci, a duras penas. Perdi 20kg e muito cabelo. Claro que não o suficiente pra que alguém percebesse, mas eu percebi. E perdi cabelo não só porque ele caiu, mas porque eu arrancava. O remédio não me fez mal, dum modo geral. Mas fiquei extremamente irritadiça. Chorava e me machucava por muito pouco, só porque não podia comer o que me incomodava. Supri falta de comida com gastos desenfreados.

Mas, apesar de tudo isso, eu emagreci. E isso me deixou feliz, é claro. Cabia em jeans 44, podia usar regatinhas e shortinho sem parecer ridícula, o assento do ônibus não era mais pequeno demais pra mim. Enfim a gorda porca em que eu tinha me transformado tinha ido embora. Só me deixou uma tristeza: meus vestidos já não ficavam mais tão bonitos, pareciam frouxos demais, mesmo os pequenos. E só isso.

Todo mundo me julgou – e não pouco – pelo uso de remédios. O que eu posso dizer é que assumi o risco e precisei daquilo. Não pra emagrecer, mas pra achar o “eu” perdido em mim mesma. Foi uma forma de “chacoalhar a poeira” e reviver (inclusive cortando os cabelos podres de excesso de tintura e tirando peles mortas dos pés). E voltei a tomar banho todos os dias, é. Me sentia, finalmente, bonita.

E aqui vale outra ressalva: o fato de eu me sentir bonita, gorda ou magra, não quer dizer que eu seja bonita. Pra mim, eu sou. Mas sei que o resto do mundo não vê dessa forma. Há quem concorde, há quem discorde. Penso que eu sou daquela gente que vive na linha tênue entre o bonito e o feito, que nunca dá pra determinar de que “lado” realmente está. E eu gosto disso. Gosto da sensação de ser diferente – por isso, por exemplo, não me incomoda o fato de ser vesga – e não ter como ser confundida, nunca, com qualquer pessoa linda de balada. Sempre tive em mente que gente bonita é gente diferente, então por que não eu?

Às vezes a gente, até eu, fica meio emputecida com mulher que emagrece porque gordas também são maravilhosas. Eu ficava, sim, até entender que tem vez que a gente precisa disso, como eu precisei.

O caso é que depois de ser ex-gorda por algum tempo, meu remédio foi proibido e se tem uma coisa que é muito diferente é um apetite controlado por medicação e um apetite de verdade. Duh, eu voltei a comer. E, duh, eu voltei a engordar. Bem rápido, aliás.

Fiquei triste, claro. E não por pouco tempo. Entrei em academia pra tentar reverter a maldição do sobrepeso, mas só fez acelerar. Tava, de novo, ficando realmente deprimida. Até meu namorado me dar um safanão (simbólico, claro): “o problema não é que você tá engordando, eu não ligo pra isso. Mas você tá muito relaxada”. Se eu estivesse absolutamente confortável com a condição de “gorda relaxada”, teria cagado pro comentário. Mas eu já sabia que o caso era bem outro. E aí que me deu aquele estalo, né?

Do tipo “eu não preciso ser relaxada só porque estou engordando, é claro!”

O engraçado é que lidar com o emagrecimento é fácil. Ninguém questiona os motivos de você emagrecer. É óbvio que perdeu peso porque “criou vergonha na cara”, não importa se aconteceu porque, sei lá, você teve um câncer no estômago. Emagrecer é fácil porque todo mundo vai te elogiar (mesmo que condene seus métodos) e vai te colocar pra cima. Quando você engorda é que a coisa é triste. Querem saber se você tá doente ou com problemas, querem afirmar que não faz bem pra sua saúde (não importa o que os seus exames digam) e querem decidir o melhor regime pra você. Quando você engorda, ninguém quer saber se você se sente bem ou está satisfeita com o corpo que tem, porque na cabeça do mundo é óbvio que não, não está. E o tratamento dispensado é sempre esse, o de quem sabe que não está tudo bem (mesmo que esteja).

Por isso é difícil de lidar.

Quis escrever esse post porque decidi que não vou deixar de me sentir bonita só porque engordei e porque falar sobre o assunto é uma forma de lidar com isso. O que mudou, de fato? O tamanho dos meus jeans? A circunferência da minha barriga? O formato do meu corpo ainda é o mesmo, meu rosto ainda é o mesmo e eu ainda sou a mesma. Precisei ser ex-gorda pra entender isso. E precisei ser ex-magra pra entender que não tem nada de errado em ser gorda.

Não quero emagrecer. Quero que meus vestidos, mais do que shorts e regatinhas, fiquem bem em mim.

E quero que aceitem, sim senhor, que me aceito muito bem da forma (redonda) que sou.

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Um pouco sobre o fim do mundo

Não quero refletir pessoalmente sobre meu ano (nunca mais farei isso), mas 2012, de um modo geral, foi um ano de mudanças.

Todo mundo sabe daquele blá blá blá de fim do mundo, essa coisa mágica que parece que a humanidade não pode sobreviver sem. Eu tenho menos de 25 anos e já passei por bem uns 4 ou 5 “fins do mundo”, incluindo nessa contagem o pavor que foi quando ligaram aquele acelerador de partículas que podia criar um buraco negro, engolir o Universo, etc. Coisa que Dan Brown faria melhor.

O que a gente sabe, depois de tantos “eu sobrevivi a tal fim do mundo”, é que as chances de nada acontecer no dia 21/12 são absolutas. Nada vai implodir, derreter, carbonizar, etc. Mas o caso é que o mundo que nós conhecemos, em 2012, acabou. Não que eu seja grande conhecedora de piadas apocalípticas e coisa do tipo, mas só do que me lembro, dá pra dizer que Corinthians ganhou a Libertadores e perdemos Hebe Camargo e, agora, Oscar Niemeyer. E sei que teve um pouco mais da checklist pro fim do mundo que rolou por aí, eu é que sou desmiolada mesmo.

Dá pra dizer que o brasileiro ficou sem as principais piadas prontas de boteco, de roda de conversa, de qualquer lugar. O mundo não vai, literalmente, acabar, mas calhou que de várias formas já acabou. Coincidentemente, em 2012.

A única pessoa que devia estar apavorada agora é o Sílvio Santos. Pelo menos pelos próximos 24 dias…

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Embalagens

Aí que ontem tive uma epifania. Duas meninas passaram por mim, naquele estilo todo “mama I wanna be rocker”, cabeça com a lateral raspada, esse All Star “iate” que não sei como chama hoje, shortinho desfiado, meia calça rasgada, camiseta “podrinha”, e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que, pelo sim, pelo não, gente discreta é muito mais legal.

Ok, fashionistas dirão que roupa é uma forma de dizer ao mundo quem você é, uma forma de expressão. Juro que não me importo, já que sou só uma pessoa formada em Letras que usa os mesmos tênis e as mesmas camisetas da época do Ensino Médio, e não entendo nada do conceitual ou do que deveria ver em moda e nas roupas alheias. O que vejo, do auge do meu desconhecimento, é só gente estereotipada e sem graça, que quer dizer nas roupas tudo o que ouve, lê, joga, acredita e é, mas odeia ser julgada por aparências se esse julgamento for diferente do que ela se propôs a receber.

Aqui faço uma ressalva: não me oponho a camisas de banda, de jogo, de livro, de cinema, de religião ou de visão política, nem acessórios no geral, afinal… quem nunca vestiu uma dessas? Me oponho só ao traje completo. E não to dizendo aqui que a pessoa que escolhe assumir pra si uma identidade e mostrar isso nas roupas não está sendo autêntica. Nah, nada disso. O que quero dizer é que eu, e provavelmente só eu, acho completamente desinteressante pessoas que se apresentam já com uma imagem pré-formada.

Só porque você já colhe algumas informações sobre ela, que podem ou não induzir ao preconceito, sem trocar duas palavras. Meio excesso de coisa, sabe? Meio equivalente a deixar tudo nas redes sociais bastante explícito e tirar completamente a graça de descobrir aos poucos quem é esse alguém? De verdade, eu não me lembro da última vez que fiz novos amigos fora da internet, mas sempre tenho a sensação de que pessoas vestidas de forma extremamente discreta e que de repente surpreendem dizendo que gostam dos mesmos filmes que você são muito mais legais do que aquelas que escrevem na testa a que vieram.

Mas respeito, é claro. Já disse que não acho que seja aí uma falsidade, só não acho interessante.

E, de toda forma, usar jeans e camiseta do Ensino Médio ou vestido e sandália também induzem ao preconceito. E talvez também diga algo a meu respeito, tipo que não quero que saibam quem eu sou por dentro, só porque não interessa pra toda a parcela do mundo que não me conhece. É.

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Por um instante, perdi o jeito

Por um instante, pensei que não estava mais pensando, já que nunca mais escrevi aqui.

Hoje entrei no WordPress pra ver um outro blog, que criei e ainda não alimentei, e percebi que pensei foi até demais. Oito posts sem conclusão. Pois é. Ando pensando muito, muito, muito. Mas tudo truncado demais. Tudo extenso demais. Tudo desorganizado demais. Tudo igual demais.

E tudo argumentado demais.

Não sei se perdi o jeito de concluir o raciocínio ou se os raciocínios não querem mais ser concluídos. Só sei que ainda penso.

E no fim é assim que eu gosto: curto, sucinto e porque sim. Como as oito postagens deveriam ter sido e não foram.

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Sobre “famosas sem make”

Essas fotos da Juliana Paes, sem maquiagem no seu aniversário, me fizeram pensar sobre isso.

Não vou fingir que sou santa nem nada disso: adoro olhar celebridade sem maquiagem pra me sentir menos baranga. Sei o poder que os itens certos fazem pelo rosto de qualquer mulher, e não só pra esconder manchas, acne ou realçar olhar. Sei que uma boa maquiagem ajuda a ajeitar o tamanho do nariz, a distância entre os olhos, o bochechão. E, óbvio, adoro ver gente perfeita sem as cápsulas de Photoshop, pra ver que elas, como eu, também tiveram espinhas na adolescência e esqueceram do filtro solar.

Duh, eu sou normal.

O caso nem é esse. Sempre que vejo essa moçada – ou nem tão moçada assim – de cara lavada, a única coisa que me vem à cabeça é isso: eu sou normal. O incômodo com as fotos da Juliana Paes foi outro: o povo dizendo que ela, e todas ascelebsque já apareceram sem maquiagem por aí, é “feia como o diabo”. Só porque, meu Deus que crime, ela não tem pele de cera. E tem os olhos meio esbugalhados, sei lá. E tanto faz se o autor do comentário é uma “baranga invejosa” rindo seu despeito ao ver que dona Juliana tem corpão, sim, mas se o rosto é daquele jeito, com certeza na bunda tem celulite, ou se é um senhor de meia idade que se sente melhor de pensar que nunca vai “ter” o corpão de dona Juliana, mas nem queria mesmo porque ela é “muito feia”.

É como se não existisse nenhuma linha que separasse o “absurda, insana e impossivelmente perfeito” do “cruzes, que feio”. Não existe mais comum, simples assim.

O nosso maior problema nisso tudo é, dum modo geral, não enxergar o que ~~continuamos fazendo~~ com nós mesmas. Alguém tem lá todo o trabalho de mostrar uma moça sem maquiagem pra enxergármos como, mesmo vivendo pra ser linda, ela também tem pequenos defeitos. E mesmo assim achamos a fulana linda. Aí nós olhamos e, ao invés de pensarmos que, puxa, ela é linda mesmo e sabe valorizar o que tem com uma ajudinha de cosméticos e tecnologia, pensamos que, nossa, ela é horrorosa e maquiagem faz milagre.

A ideia primeira era que olhássemos e nos valorizássemos. O que acontece é que olhamos e, além de continuarmos nos desvalorizando, desvalorizamos também aquelas que valorizamos. E, ao invés de entendermos que todos somos bonitos e que todos podemos, ainda que eu seja contra isso, ser perfeitos, entendemos é que todo mundo é mesmo muito feio.

E eternamente tudo o que a gente mostrar é que só faz mesmo é cavar nossa insatisfação eterna em sermos o que somos, de fatos: humanos, e só isso.

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Olá, Janeiro

2011 foi e foi.

Me estabeleci duas metas pra esse ano: comprar menos esmaltes e ler mais.

Se consegui? Razoavelmente. Li muito mais e comprei bem menos (ainda que não o suficiente); daquele jeito: deixei de comprar 10 baratos pra comprar um caro. Assim me senti com a consciência mais limpinha, assim.

Quanto aos livros, consegui terminar o (belíssimo) Silmarillion, que me fez apaixonar ferozmente por tudo o que o Tolkien fez. Fico feliz de ter conseguido, do começo do mês pra cá, também ler mais da metade de (também belíssimo) Contos Inacabados. Fiquei sem computador por um tempo, algo que contribuiu fortemente pra ler um tantão a mais. Matei a vontade e conheci Julio Verne (por quem também me apaixonei, mas bem menos). Terminei a trilogia de cinco do Douglas Adams, li biografias, quadrinhos, sobre história da cultura, sobre gente com ideia maluca e tudo. Certamente li muito mais em 2011 do que andava lendo nos últimos anos. Até dei minha chance pra Stephen King e descobri que sou bunda-mole demais pra encarar – óbvio. Não pretendo terminar os Inacabados Contos até o final desse mês, mas só o fato de saber que não demorarei 6, 7 meses pra isso já me anima. Descobri que demorar pra terminar um livro é um gosto a mais, já que dá tempo de pensar no que se lê, é. E redescobri como esse mundo pode ser incrível.

Quanto a isso, minha meta pra 2012 é reler a sequência de Harry Potter outra vez, já que ficou na prateleira esse ano inteiro. Também é terminar Balzac e outros encostados, aqueles que fui ganhando e nunca dei conta, por falta de tempo ou de vontade.

Terminei meu primeiro jogo de videogame (Harvest Moon: Back to Nature – muito velho, é verdade, mas o que me deu gosto de jogar), passei no vestibular de uma faculdade pública, morei longe de casa por um semestre, dividi um quarto com o namorado, a casa com o irmão e a cunhada, fiz minha própria comida e sobrevivi. Finalmente peguei meu diploma do curso de Letras, tive meu primeiro artigo publicado em periódico científico, fui no meu primeiro evento internacional (mas dentro do país) na área que descobri que amo.

Achei que tinha que pensar, voltei pra casa, usei meu diploma. Não digo que foi um erro, porque sei o quanto precisava disso, mas decidi que não é bem assim. Entendi que algumas coisas mudam, isso é. Mas outras permanecem, e é por elas que vale a pena lutar. Tomei decisões complicadas, mas que parecem mais certas do que as menos complicadas.

E hoje tanto faz, porque no fim das contas chorei, sofri, dei com a cabeça na parede e me diverti um bocado nesse 2011.

Só que ele também já deu e precisa ir embora, porque com ou sem fim do mundo, 2012 tem de chegar pra coisa toda voltar lá do começo e continuar, continuar, continuar.

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Metapostagem – o primeiro ato

Eu andei pensando sobre como a internet mudou ultimamente.

A ideia era um primeiro post sobre como me enchem o saco as regras de comportamento em redes sociais. Faça isso, aquilo e mais aquilo e seja um bom usuário. Mas a verdade é que, no fundo, eu também tenho regras – particulares – de comportamento. Não entupa meu perfil de vídeo, não me mande muitos vídeos por e-mail, não tuíte vídeos, não faça um post com vídeo no seu blog e a internet (também as redes sociais) pode ser um lugar mais feliz. Reserve aos vídeos espaço pequeno, assim não me aporrinha com eles e eu não preciso gostar um pouquinho menos do seu “eu-online” por causa dessas manias estúpidas de usar vídeos para tudo. Mas o caso é que não quero dizer como vídeos demais me perturbam e como não faz sentido determinar o que pode ou não ser feito na internet, em redes sociais, whatever, já que as pessoas costumam se incomodar com coisas diferentes.

Nah.

Tudo isso só me fez pensar em como a internet mudou, e só. Lembro da “vida” antes das redes sociais, quando blogs ainda eram pessoais e fotologgers eram as primeiras web-celebridades, já que nem todos ainda tinham uma câmera digital. E andei pensando que meu conceito de blog parou no tempo.

Pois é.

Quero, neste blog, publicar textos. Sem muitas imagens, talvez sem nenhuma. Opiniões, vontades de escrever, dizer o que andei pensando por aí, do jeito que julgar melhor, sem formalidades, requintes ou necessidades. Sobre tudo, sobre nada, sobre Tolkien ou sobre meu novo condicionador. Mas hoje os blogs são temáticos. Sobre o que é o meu? Cotidiano? Variedades? Sobre tudo e sobre nada é uma categoria válida?

Sinto falta na internet daquelas épocas desses blogs pessoais. Sem o papo de “querido diário”, já que o tempo e a familiarização nos ensinaram que cautela e preservar a vida e a imagem não são frescuras, mas necessidades, mas com aquele quê de pessoalidade, de intuito de compartilhar um pouco de si – sem procurar por leitores, sucesso, MTV e um jeito de fazer dinheiro com a internet.

Não que os blogs temáticos me desagradem – nem poderiam, se já fiz parte de um. Só fogem do que, pra mim, é a ideia de um blog. Eu andei pensando e quis trazer um pouco disso de novo pra minha vida. E por isso escrevi esse post: se um dia alguém desconhecido achar este blog por acaso, entende qual é o (des)propósito dele. E assim já sabe o que (não) esperar, afinal.

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